Na última sexta-feira, o jornalista Ancelmo Góis, do jornal O Globo, já havia antecipado qual seria o anúncio oficial. E a confirmação veio dois dias depois. Na tarde deste domingo, em Nassau, nas Bahamas, a Fifa divulgou as 12 sedes brasileiras que serão palco dos jogos da Copa do Mundo de 2014.
Sem quaisquer surpresas, foram confirmadas Belo Horizonte (MG), Brasília (DF), Cuiabá (MT), Curitiba (PR), Fortaleza (CE), Manaus (AM), Natal (RN), Porto Alegre (RS), Recife (PE), Rio de Janeiro (RJ), Salvador (BA) e São Paulo (SP).
Das 17 candidatas que concorriam pela condição especial de atrair para si os duelos da principal competição de seleções do planeta, perderam lugar as cidades de Belém (PA), Campo Grande (MS), Florianópolis (SC), Goiânia (GO) e Rio Branco (AC). Dentre os motivos aventados, desde questões de logística, passando por evidências políticas.
Todas terão um cronograma relativamente curto para se adequar às exigências de um evento desse porte. As praças esportivas, seja as que careçam de reformas, ou as que serão concretizadas do ponto zero, têm a expectativa de prontidão até o fim de 2012 - isso porque no ano seguinte, véspera do Mundial, será organizada a tradicional Copa das Confederações.
O alvo prioritário é a atração de verbas provenientes da iniciativa privada para a consumação dos projetos de arenas, bem como a ampliação da rede hoteleira e demais aspectos estruturais. Mas a realidade apresenta-se, pelo menos por ora, um pouco diferente.
Em virtude da crise financeira global e da consequente retração do mercado, muitas empresas estrangeiras admitiram reduzir a volúpia de seus investimentos. A previsão é que muito desse aporte caia nos colos das próprias cidades e dos Estados, que devem abrir os cofres para levar a cabo as ações.
"Com a crise econômica, eu acho muito difícil que empresas privadas invistam no projeto neste primeiro momento. Estádio de futebol não é algo rentável que justifique o alto investimento", compreende Gustavo Corrêa, secretário de Estado de Esportes e Juventude e um dos membros do comitê de candidatura de Belo Horizonte.
"Então, o Estado [de Minas] deve assumir a responsabilidade [pela modernização do Mineirão] e depois tentar fazer uma concessão para reaver parte do investimento", justificou, ainda em entrevista ao jornal Folha de S. Paulo.
O orçamento da modernização do principal estádio mineiro chegou a ser reformulado para se ajustar ao que os órgão governamentais locais poderiam bancar. Os valores, porém, seguem em sigilo. "Posso dizer que, em termos de valor, vai ser a maior obra do governo do Estado".
Clara e oficialmente, o governo federal arcará com as obras de infraestrutura. Nos próximos dias, um Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) exclusivamente para a Copa do Mundo de 2014 deverá ser anunciado.
"Temos de nos mobilizar e ter algumas atitudes simbólicas, uma figura de proa que conduzirá o processo, mostrando que o país está empenhado. A Dilma é a mãe do PAC. Precisamos de um pai da Copa", aponta José Henrique Damiani, professor e coordenador de produção acadêmica do núcleo de estudos em negócios do esporte da ESPM.
Acreditando que o Brasil pode se firmar, quem sabe, como a "Copa dos combustíveis renováveis", Damiani enxerga o esporte como um serviço diferenciado. E o evento propriamente dito, só ele, não entrega o produto necessário: há um conjunto importante de serviços de apoio e a experiência esportiva requerida é global. Os jogos acabam passando, ao fim do pouco mais de um mês, como um detalhe.
A quantificação dos benefícios de natureza indireta ou intangível, como foi o caso da China, com a realização dos últimos Jogos Olímpicos, bem como Atenas, na edição precedente, são exemplos que devem ser mirados. Mais próximo, porém em menor proporção, fica a lição do Pan-Americano de 2007, no Rio de Janeiro, cujos gastos finais superaram em demasia as projeções iniciais.
"A mensuração de impactos econômicos passa por uma analise econômica de projetos, da taxa interna de retorno, do valor presente líquido e do prazo de recuperação de investimentos", aponta Damiani.
São as despesas diretas e indiretas (conjunto de custos ocultos), as receitas, da mesma forma, em um período específico, as residuais e os impactos de longo prazo e de teor negativo, fora os riscos (previsíveis)
"Atenas não foi bem sucedida do ponto de vista econômico. Foi em uma época de atentados terroristas pelo mundo, o que prejudicou o número de turistas que se dispuseram para lá", relembra o docente da Escola Superior de Propaganda e Marketing.
Há ainda aspectos envolvendo a cadeia de valor da indústria do esporte, as relações entre fornecedores, produtores, distribuidores, consumidores, e os efeitos indiretos sentidos com maior intensidade pelos pólos esportivos. O que não significa que os que se ausentaram da escolha de Blatter, Ricardo Teixeira e Cia. sejam carta fora do baralho em um pensamento estendido.
"Na questão da permuta, o que interessa são os visitantes novos. Ocorre, assim como o foi na Alemanha, por exemplo, a fuga dos turistas. Muitos hóspedes podem preferir se hospedar em Niterói ao invés do Rio de Janeiro, alguma cidade do interior paulista do que em São Paulo. É muito comum", acrescenta Damiani.