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10/03/2010
Diário de viagem - Parte 1
No livro "Gordon Banks: a hero who could fly", o autor descreve o poder transformador do futebol na vida de um garoto

Na última semana, a convite da Federação Irlandesa de Futebol (FAI), fomos à Inglaterra assistir ao jogo Brasil e Irlanda, no Emirates Stadium e, posteriormente, a Dublin, para um ciclo de palestras sobre como é administrado o futebol no país.

O resumo da história é esse, mas a viagem foi ainda mais rica na possibilidade de observarmos o trabalho desenvolvido pela FAI, de forma pragmática, bem como sobre aquilo que catapulta o futebol além do próprio esporte e interfere na sociedade.

Importante contextualizar o ambiente que nos levou até lá. E existe um personagem-chave, chamado Don Mullan.

Don Mullan, na juventude, testemunhou, na sua cidade natal, o segundo episódio que ficou conhecido como Bloody Sunday ("Domingo Sangrento").

O "Domingo Sangrento" é o termo utilizado para descrever um massacre em Derry, Irlanda do Norte, no qual foram mortos 14 manifestantes e 26 ficaram feridos, ocorrido no dia 30 de janeiro de 1972, quando o 1° Batalhão do Regimento de Paraquedistas do Exército Britânico dissolveu uma manifestação pacífica a favor dos direitos civis e contra o governo da Irlanda do Norte.

Das 13 vítimas fatais, seis eram menores de idade, e um ferido, que faleceu meses depois do incidente. Todas estavam desarmadas e cinco delas foram alvejadas pelas costas.

Os manifestantes protestavam contra a política do governo irlandês de prender sumariamente pessoas suspeitas de atos terroristas. Essa política era dirigida contra o Exército Republicano Irlandês, o IRA, organização que lutava e luta pela separação da Irlanda do Norte da Grã-Bretanha e posterior união com a República da Irlanda.

Após o "Domingo Sangrento", o IRA ganhou um número enorme de jovens voluntários, dando força ainda maior ao grupo. Em memória daquele dia, foi feita a canção "Sunday Bloody Sunday!", em 1983, pela banda irlandesa U2.

O então garoto de 15 anos estava na manifestação e viu, exatamente ao seu lado, um amigo do time de futebol da rua tombar morto, após levar um tiro da polícia inglesa.

Não entrou nas fileiras do IRA como muitos outros amigos dos times de futebol do bairro porque, quatro anos antes, o futebol já o havia seduzido e alistado.

Como sempre era o último a ser escolhido nas peladas, sobrava a posição de goleiro. E o garoto foi pegando jeito e gosto pelo futebol, até o momento em que passou a ter como ídolo Gordon Banks, o grande goleiro da Inglaterra.

Seu pai, por observar a transformação positiva que o futebol imprimia na vida do filho, promoveu um encontro entre ambos. Não precisa dizer o que representou aquilo na formação do caráter do garoto.

Don Mullan tornou-se um grande jornalista investigativo e ativista pelos direitos humanos na Irlanda, que escreveu, dentre outros livros, um que retrata o Bloody Sunday, além de ter co-produzido e atuado no filme homônimo.

O que nos remete, entretanto, aos laços entre a Irlanda, o Brasil e o futebol, é o livro escrito por Don Mullan, em 2006, chamado "Gordon Banks: a hero who could fly" (ainda sem tradução para o português).

No livro, inspirado no caderno de anotações de 500 páginas que o garoto dedicava ao ídolo, mundialmente famoso pela defesa na cabeçada de Pelé na Copa de 1970, o escritor descreve o poder transformador do futebol na vida de um garoto.

A partir deste histórico de ativismo social e do envolvimento com Banks, chega-se ao Brasil.

Por ironia - e felicidade - do destino, Don Mullan ficara sabendo que, no Brasil, havia o apoio de Pelé ao Hospital Infantil Pequeno Príncipe, de Curitiba, referência na América Latina no atendimento às crianças.

Eis que resolveu promover a aproximação de todos: do hospital brasileiro, do Our Ladys Hospital, de Dublin, de Pelé, de Gordon Banks, do Brasil e da Irlanda.

Nada mais tem feito do que comprovar o poder transformador do futebol na vida de um garoto. E também da sociedade.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br


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