O sorriso é franco e aberto. O papo, misturando música e futebol, parece agradar ao entrevistado. Talvez seja porque Carlinhos Vergueiro se sinta verdadeiramente um profissional da bola, apesar de desenhar lances com classe em outro campo artístico. E quando é convocado a refletir sobre suas paixões, ele se expressa de modo lúdico e competente: um craque.
Em meio a uma carreira que se aproxima de quatro décadas, o cantor e compositor invariavelmente se viu dialogando com esse esporte. Muitos foram os gols, seja reverenciando grandes nomes, como Zico, Raí, e Romário, ou saudando torcidas que o emocionaram, como em Nação Corinthians. Clubismo à parte, Carlinhos trata mesmo o futebol em um plano superior, mas com uma leitura bastante simples.
No seu début dentro dessa grande área, tabelou com Toquinho e compôs Camisa Molhada, referência aos tradicionais duelos nos campos de várzea. O sucesso apareceu já em seu terceiro LP, de 1976 – outros oito, além de seis CDs, completam a discografia.
“Foi a primeira música que fiz falando de futebol. Na várzea, é costume dizer que é melhor que o juiz não erre, e se errar que seja para o seu time. Do contrário, a gente tira e troca por outro”, brincou Carlinhos, nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol antes da apresentação “Show de Bola”, na última semana, no SESC Consolação.
Além de relembrar junto ao público parte de sua trajetória, o músico contou histórias – outro talento próprio de Carlinhos – sobre parcerias com quem manteve. Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Toquinho, Sueli Costa, J. Petrolino, Paulo César Pinheiro, Elton Medeiros, João Nogueira e Paulinho da Viola foram alguns dos que dividiram palcos e emoções com esse torcedor duplamente tricolor (Fluminense e São Paulo), mas brasileiro, sem demagogia, acima de tudo.
“Pode ser que eu esteja enganando a minha idade para mim mesmo, ou me enganando, simplesmente, mas quando estou assistindo a uma partida de futebol, eu reproduzo em minha mente algumas daquelas jogadas que realizava nas peladas nos campinhos”, revelou o cantor que teve seu samba "Vendaval" incluído no CD "Os Grandes Sambas da História".
Entre outros vieses da cultura popular, Carlinhos falou ainda sobre as características intrínsecas do povo miscigenado, sua formação ligada a uma família de artistas e por que o samba é a música que nos apresenta ao mundo.