Na trajetória de sua existência, o futebol tem sido ensinado, treinado e investigado, sob o olhar de diferentes perspectivas, as quais deixam perceber concepções diversas a propósito do conteúdo do jogo e das características que o ensino e o treino devem assumir, na procura da eficácia. Essa é a avaliação do Prof. Dr. Júlio Manuel Garganta da Silva, ciente de que não cabe mais explicar o esporte meramente pelo viés cartesiano.
Se a lógica positivista ditava as regras para o estabelecimento de metodologias (como a tecnicista) e atitudes, coadunando em uma didática rígida e marcada pela influência das correntes behavioristas, novas tendências em pedagogia do esporte surgiram e têm o professor da Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física da Universidade do Porto, Portugal (FCDEF-UP) como um dos entusiastas.
Nesta segunda parte da entrevista inédita e exclusiva concedida à Universidade do Futebol, Garganta aprofunda a discussão sobre lógica e princípios de jogo, modelação tática e a disseminação de um conceito de modelo de jogo (para ler a primeira parte, clique aqui).
"O conceito de modelo de jogo pode ser disseminado através de treinadores como Arsène Wenger, José Mourinho, Rafael Benítez, que ao falar sobre o que acreditam (em termos metodológicos) acabam criando referências", avalia o português. "Mas o mais importante é não ficarmos presos aos modismos, e sim sermos coerentes com o que acreditamos".
Para Garganta, não enfatizar um treinamento excessivamente tecnicista em idades menores, começando-se a treinar sistemas, esquemas ou definindo posições precocemente, é um passo importante para a potencialidade de futuros craques.
Nesse contexto, o futebol de rua surge como um fator que permite a possibilidade de se desenvolver competências para jogar a partir do próprio jogo, "com variadas situações de imprevisibilidade e sem muitos controles, que hoje já não são tão comuns".
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SOBRE LÓGICA E PRINCÍPIOS DE JOGO
"A lógica está relacionada sobretudo ao conteúdo, aos princípios do jogo. (...) Refere-se aos códigos, à forma de comunicar, à forma de atuar em jogo; passam por um 'saber em ato', materializando-se ideias para os diferentes momentos do jogo".
(Júlio Garganta)
MODELAÇÃO TÁTICA DE JOGO
"O treino é que faz o jogo, que justifica o treino. (...) Modelar o treino é modelar os princípios e não os fins. Busca exprimir determinados comportamentos futuros".
(Júlio Garganta)
DISSEMINAÇÃO DO CONCEITO DE MODELO DE JOGO
"O conceito de modelo de jogo pode ser disseminado através de treinadores como Arsène Wenger, José Mourinho, Rafael Benítez, que ao falar sobre o que acreditam (em termos metodológicos) acabam criando referências. (...) Em 1989 na Faculdade do Desporto (Porto, Portugal), eu e o prof. Jorge Pinto escrevemos um artigo acadêmico sobre modelo de jogo que de certa forma valeu também como referência. (...) Mas o mais importante é não ficarmos presos aos modismos, e sim sermos coerentes com o que acreditamos".
(Júlio Garganta)
"HARDWARE" E "SOFTWARE" DO JOGADOR E A ESTANDARTIZAÇÃO DO FUTEBOL
"É importante não enfatizar um treinamento demasiadamente tecnificado em idades baixas, começando-se a treinar sistemas, esquemas ou definindo posições precocemente. (...) Neste sentido o futebol de rua permite a possibilidade de se desenvolver competências para jogar a partir do próprio jogo, com variadas situações de imprevisibilidade e sem muitos controles, que hoje já não são tão comuns".
(Júlio Garganta)
OS MALES DA TENDÊNCIA DE PADRONIZAÇÃO
"Não existe apenas uma forma de jogar, nem apenas uma forma de treinar. (...) A padronização (mesmo do êxito) pode empobrecer o futebol. (...) Aconselho os meus estudantes a elegerem a sua própria metodologia, a sua forma particular de intervenção, aprendendo com toda a gente, mas desenvolvendo sua própria maneira de trabalhar e ser. (...) A diversidade é mais enriquecedora que a padronização".
(Júlio Garganta)
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