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01/02/2012
Um grande mal entendido...
Preparador físico do FC Metalist, brasileiro Michel Huff analisa o caso Daniel Carvalho e comenta os procedimentos médicos ucranianos
Michel Huff*

Me permito usar a frase do título neste texto que produzi depois de ser questionado por um jornalista de São Paulo a respeito do caso Daniel Carvalho, que comentou ter feito uso de substâncias dopantes na época em que jogou pelo CSKA Moscou, da Rússia.

Esse relato foi feito pelo atleta para justificar um questionamento envolvendo a sua condição física, especificamente sobre o peso, que para muitos está fora do ideal para prática do futebol.

Algumas pessoas precisam entender que um atleta tem seu corpo constituído de peso de gordura, peso muscular, peso ósseo e peso visceral, sendo que os dois primeiros sofrerão alterações no decorrer dos anos de profissão; isto é, nenhum atleta de futebol da atualidade terá o mesmo peso tanto muscular como de gordura no decorrer de sua carreira, principalmente o peso ideal aos 20 anos em se comparando ao peso ideal perto dos 30 anos.

Se por acaso encontramos um atleta que não apresente alterações no decorrer de sua carreira, ele pode ser considerado fora dos padrões da normalidade.

Já encontrei preparadores físicos desesperados fazendo loucuras para que os seus atletas baixassem o peso tendo como parâmetro o peso ideal quando este atuava no seu primeiro ano de profissional.

Esse tipo de planificação de treinamento, para mim, é somente uma forma de priorizar a questão física relacionada a peso de gordura, fazendo até muitas vezes treinamentos não específicos ao que é desenvolvido dentro do contexto do jogo para objetivar a perda de gordura. Consequentemente, a diminuição de peso muscular influenciará no desempenho do atleta no futebol que atualmente é baseado em força e velocidade específica envolvendo o caráter cognitivo do jogo.

O preparador físico terá atingido seu objetivo, mas o treinador terá que dar entrevistas explicando o porquê da falta de força e lentidão do atleta por consequência de um estereótipo que se criou no futebol, o qual está enraizado há muito tempo.
 


A velocidade da informação

 

Esse texto, entretanto, também serve para esclarecer que aqui no Leste Europeu se coíbe qualquer tipo de dopagem utilizada por atletas dentro do futebol, até porque times da Rússia e da Ucrânia disputam competições organizadas pela Uefa (controle em todos os jogos), entidade forte do futebol que somente está abaixo da Fifa.

Inclusive no campeonato ucraniano temos um caso atual do controle antidoping que flagrou o uso de substância proibia do goleiro do Shakhtar Donetsk, Alexander Rybka, em um jogo do campeonato ucraniano - ele foi punido severamente com dois anos de suspensão dos gramados.

Enfim, absolvo o Daniel Carvalho por não saber distinguir a utilização de polivitamínicos e fortificantes que são utilizados semanalmente dentro de uma cultura de recuperação física que é praticada na Rússia e aqui na Ucrânia também para "melhor desempenho" dos atletas com utilização intravenosa de substâncias sem efeito dopante nenhum, utilizada em muitos hospitais para nutrir pacientes debilitados.

Esse tipo de procedimento provém de muito tempo aqui no Leste Europeu, algo enraizado pelos médicos mais convencionais e que para mim serve mais como placebo do que qualquer tipo de vantagem física.

Acredito que precisamos rever alguns conceitos nossos no Brasil, pois o Ronaldo Nazário foi "Fenômeno" de 1994 até 2010, com 75 kg no início de sua carreira e com 100 kg na reta final da mesma, fazendo gols, levantando taças e jogando muito mais que muitos atacantes com estereótipos que a imprensa e os preparadores físicos querem...

*Michel Huff é preparador físico do FC Metalist, da Ucrânia. É professor de Educação Física (IPA-IMEC/RS) com Pós-graduação em Técnico Desportista em Futebol e Futsal (PUC/RS) e assina um blog no qual conta as suas experiências no mundo do futebol.

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