entrar  Esqueceu a senha?   ou 
Cadastre-se gratuitamente e tenha acesso ao conteúdo
 
Técnica
20/03/2013 08:39:18
Treinamento de força na Periodização Tática: um aliado mal compreendido
O método criado por Vítor Frade revolucionou a forma de se treinar futebol e deve ser sempre analisado e estudado, mas, na mesma proporção, deve sofrer ajustes
Sandro Sargentim

Adicionar aos favoritos
Adicionar aos favoritos

Com o passar dos anos, cada dia mais novos meios de treinamentos surgem nos desportos competitivos e na rotina de treinamento dos indivíduos não atletas.

Nas modalidades competitivas, meios de treinamento são testados, e os principais se fixam facilitando aos técnicos e preparadores físicos cada dia mais agregar conhecimentos atualizados em busca de um rendimento mais específico em prol do alto rendimento dos atletas e/ou das equipes relativas a cada modalidade.

No futebol, esse processo de atualização esta cada vez mais acelerado e novos meios de treinamento são apresentados aos profissionais, possibilitando um aporte de conhecimento para a evolução do esporte para a melhora do esporte mais popular do mundo.

Nessa linha de evolução dos métodos de treino a mais recente atualização é uma linha criada dentro da Universidade do Porto pelo professor Vítor Frade denominada Periodização Tática.

Dentro da enorme complexidade do excelente método, o professor Frade e seus "seguidores" defendem que todo processo de treinamento para o jogo de futebol deve ser desenvolvido dentro do "modelo de jogo" definido pela equipe técnica.

Não entra nessa metodologia nenhum exercício que não seria desenvolvido através da melhora da forma da equipe jogar. É uma concepção de treino que pretende, através do respeito por uma matriz conceitual e diferentes princípios metodológicos próprios, construindo um jogar específico.

Dentro das diretrizes básicas desenvolvidas dentro desse método o que rege a sequencia dos meios de treinamento é o plano tático, esse mesmo sendo o responsável hierarquicamente pelo desenvolvimento das demais características que compõe o futebolista.

Nessa linha de aplicação, o modelo de jogo, determinado pela dimensão tática sobrepõe as dimensões técnicas, físicas, psicológicas e as tomadas de decisões.

Muito bem, até então nada de novo, pois a maioria dos leitores desse site já conhecem muito bem as diretrizes desse método.

O tema que pretendo colocar nessa coluna segue de agora em diante. Segundo as leis que regem a Periodização Tática, tudo o que foge o modelo de jogo, a especificidade, não deve ser treinado.

Possivelmente esse detalhe seja um dos mais polêmicos do método. Segundo Frade e os profissionais que disseminam e aplicam o método, o treino de força deve ser abolido das sessões de treino de uma equipe de futebol.

Dentro da Periodização Tática, o ganho de força seria feito com os exercícios específicos do jogo de futebol, com as inúmeras mudanças de direções e suas respectivas frenagens, desaceleração, arranques e gestos específicos do jogo (chute, saltos, giros, etc.). Frade acredita que se ganha à força naturalmente com os gestos específicos do futebol.

Justamente nesse ponto que o autor se engana, pois mesmo dentro desse engenhoso e detalhista método, quando ele tenta justificar o aumento de força com os gestos naturais dos futebolistas ele ignora tudo que a ciência já comprovou por anos que existem ganhos e melhora do aporte de rendimento especifico do futebolista ou de qualquer desportista.

O treinamento de força é algo comum e recorrente em todas as principais modalidades do mundo. O ganho de força para a melhora dos gestos rápidos e potentes é comum no tênis, no basquete, no vôlei, no futebol americano, rugby, handebol,boxe, lutas, entre tantos.

O aumento da força como defendido dentro da Periodização Tática, através dos gestos naturais realizados no campo, não tem comprovação científica qualquer. Nenhum estudo consegue comprovar que apenas com os gestos específicos do jogo, se aumenta o nível de força (em suas diversas manifestações) ou da potência muscular.

As repetições dos gestos específicos do futebolista, dentro do modelo de jogo, não aumenta força por uma razão muito simples, essas ações exigem o componente neuro muscular do indivíduo, essas ações cobram a força do futebolista e não fornecem força como acreditam os defensores do método.

O que nos deparamos quando analisamos essa questão é uma crença sem aparato científico, ferindo com isso um dos princípios básicos do treinamento desportivo, o princípio da sobrecarga.

Se não fornecer sobrecarga, não ocorrerá aumento de força, e sem aumento de força, não existe aumento na potência muscular (Wilson, 2006) e cada vez mais lento e fadigado o futebolista estará ao longo do jogo e da temporada competitiva.

O aumento de força quando treinado de forma específica, fora dos aparelhos, com os exercícios priorizando a melhora do padrão de movimento em cadeia cinética fechada, através das diversas articulações acometidas no futebolista (tornozelo, joelho e quadril) contribuirá para a melhora dos gestos específicos facilitando as execuções corretas dos exercícios propostos dentro do modelo de jogo (Faude, 2005).

O princípio básico do treinamento de força esta voltado para a melhora no padrão de movimento, e não isolar os grupamentos musculares e suas articulações específicas (Boyle, 2010).

Outro detalhe essencial é o treinamento de força para a profilaxia de lesões.

A falta de equilíbrio muscular especialmente na cadeia posterior do futebolista é a principal causa de lesões dentre os atletas de futebol (Gatz, 2009).

A principal característica de lesões musculares em atletas de futebol acontece quando existe um desequilíbrio entre a ação muscular concêntrica (agonista) e a excêntrica (antagonista) (Fischer-Rasmussen e cols., 2001).

Esse consenso literário não pode ser ignorado e simplesmente acreditarmos que o treinamento específico da modalidade aumentará a força, pois além de não atingir esse objetivo, pode aumentar o desequilíbrio já existente, possibilitando ao atleta uma maior chance de lesões musculares.

O desequilíbrio da musculatura anterior com a musculatura posterior do futebolista é a principal causa de lesões musculares em atletas de futebol de campo (Twomey e cols., 2009).

Um programa de treinamento de força de forma equilibrada, pautada em diretrizes simples que visam o aumento de força, melhora na velocidade de execução do movimento e posteriormente na melhora da resistência dos movimentos potentes e específicos (Sargentim, 2010), podem sim contribuir de forma plena e pontual para as ações exigidas dentro do treinamento do "modelo de jogo".

A questão levantada nessa coluna é que o treinamento força bem pautado que gera uma melhora na potência e na resistência de potência pode sim melhorar o desempenho do futebolista nas ações específicas do futebol, gerando uma maior segurança para o atleta desempenhar suas ações dentro de campo.

Sob esse panorama, se a equipe técnica escolher aplicar a Periodização Tática como método de treino para a melhora da equipe, ela pode sim encontrar no treino de força como um grande aliado e não um inimigo como defende o mentor do método.

Tudo na vida é criado, aplicado, ajustado e adaptado. O método criado por Vítor Frade revolucionou a forma de se treinar futebol, deve ser cada dia mais analisado e estudado, mas na mesma proporção deve sofrer ajustes, caso contrário não conseguirá evoluir e tende em anos a entrar em desuso.

Se por um acaso os mentores do método não quiserem por arrogância ajustar a forma de se pensar e aplicar cabe aos seus "seguidores" absorver o conhecimento e com o tempo alinhar as ideias com as possibilidades específicas de cada equipe e de cada atleta, sempre favorecendo para o crescimento da nossa profissão.

Referências bibliograficas

Boyle, M. Advances in functional training: training techniques for coaches, personal traines and athletes.Ont Traget Publications, 2010, p.314.

Faude, O.; Junge, A.; Kindermann, W.; Dvorak, J. Injuries in female soccer players. American Journal of Sports Medicine, v.33, n.11, p.1694-1700, 2005

Fischer-Rasmussen, T.; Jensen, T. O.; Kjaer, M.; Krogsgaard, M.; Dyhre-Poulsen, P.; Magnusson, S. P. Is proprioception altered during loaded knee extension shortly after ACL rupture? Int. Journal Sports Medicine, v.22, p. 385-391, 2001.

Gatz, G. Complete conditioning for soccer. Human Kinetics, 2009, p.197.

Sargentim, S.: Treinamento de força no futebol. São Paulo:Phorte. 2010. p.120.

Twomey, D; Finch, C; Roediger, E; Lloyd, DG. Preventing lower limb injuries: is the latest evidence being translated into the football field?. Journal of Science & Medicine in Sport. 12(4):452-6, 2009.

Wilson, W. Rugby Fitness Training: A Twelve-Month Conditioning Programme. Crowood Press; illustrated edition. 2006, p-189.

Tags: Periodizaçao tática , treinamento de força , Metodologia , métodos , treino , vitor frade , exercícios , modelo de jogo
8 Comentários
Comentar
Anderson
Parabéns Prof. Sandro Sargentim pelo excelente artigo desenvolvido abrangendo os conceitos do treinamento de força direcionado a metodologia PT.
Pedro Simoes
Uma questão a se debater é se a Periodização Tática, mesmo tendo um risco maior de gerar contusões e não tendo um treino comprovado de fortalecimento muscular, consegue com sua genialidade do treinar compensar essas questões cientificamente comprovadas.Pode ser que a capacidade técnica, física, tática e principalmente mental, num 2ºtempo desgastante, possa ser melhor adquirida com a Periodização ocorrendo em escala completa nos treinos, pois é impossível compensar cargas de treino de força e P.T
Marcos Antonio Chioquetta
Parabens pelo artigo Sandro...nao podemos ignorar tdo q se foi feito ateh hje, temos q evoluir mas com cautela, a PT eh mto interessante concordo, mas vc colocou mto bem explicado em seu artigo q ajustem tem q ser feitos, e tb cada Treiandor ou P.Fisco dve colocar ao metodo o seu estilo d trabalho, baseado no seu conhecimento adquirido tanto na teroria qto na pratica...Gde abraco a tds e mto bom estar discutindo futebol c vcs!
Rodrigo Almeida
"Não se sente falta do desconhece" disse Henry Laborit em 1971. É preciso ler MUITO mais sobre o assunto para tecer certas conclusões, sobretudo, sobre o historial do Prof. Vítor Frade que lecionou durante 33 anos várias disciplinas na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto e incluindo a Teoria e Metodologia do Treino Desportivo. Contudo, respeito a sua opinião e dentre desejos de sucesso (pessoal e profissional) aconselho muito mais leituras sobre o assunto.
Walerio Araujo de Melo
WALERON MELO Parabéns pelas idéias inovadoras. No Brasil treina-se muito (volume)sem focar na qualidade do treino. Acredito q a PT do prof. V F pode ser "adaptada" à nossa cultura, como a Construção do Treino Subordinada ao Jogo do Prof. R Leitão, onde ele deixa claro que não se trata de desprezar os conhecimentos contruidos ao longo dos anos nas diversas áreas das ciências do desporto, mas conhecê-los melhor, integra-los e avançar a uma nova dimensão da preparação desportiva.
dico23@gmail.com
Acho,não, não acho, tenho certeza, você Sargetim e todos que defendem esse trabalho de "força" no futebol, nunca conversaram pessoalmente com o professor Vitor Frade ou esteve a acompanhar um dia no FC Porto. Como me explicam eles não fazerem nada disso e ganhar quase tudo na base, contra equipes que fazem tudo isso que vocês pregam? Ou jogadores da base que nunca fizeram esse tipo de treinamentos e subirem pro profissional e jogarem como jogam? Tentem ir lá no FC Porto e voltaram com outra opin
TADASHI
Parabéns Sargentim. Texto muito bom.
Gustavo F. Barbosa
Excelente texto professor! Mas se me permite, gostaria de dizer que há muitos equívocos sobre a matriz metodológica da Periodização Tática. Muito do que está escrito não é o que a Periodização Tática propõe. Grande abraço!

UNIVERSIDADE NO FACEBOOK

©2013 Universidade do Futebol