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Alcides Scaglia
Colunista Especial

 

É bacharel em Ciência do Esporte, licenciado em Educação Física, Mestre em Pedagogia do Esporte e Doutor em Pedagogia do Movimento, todos títulos concedidos pela Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp.

Desenvolve estudos na área da Pedagogia do Esporte e Educação Física escolar (é co-autor do livro "Educação como prática corporal" editado pela Scipione), a partir do referencial teórico da teoria do jogo e da complexidade.

Em 2003 finalizou uma trilogia de estudos sobre a pedagogia do futebol em que, ainda na graduação, sistematizou uma metodologia para o ensino do futebol, publicada no livro "Pedagogia dos Esportes", organizado pela professora Vilma Nista Picollo e publicado pela Editora Papirus.

Já no mestrado investigou através de entrevistas com ex-jogadores de futebol (atuais professores de escolinhas) o modo como esses jogadores aprenderam a jogar futebol, para depois comparar como esses profissionais ensinam as crianças atualmente em suas escolas de futebol.

No doutorado aprofundou os estudos na perspectiva da Teoria do Jogo, comparando as semelhanças entre o futebol e os jogos/brincadeiras de bola com os pés, coadunando com a produção de uma teoria sobre o padrão organizacional sistêmico da Família dos jogos de bola com os pés.

Em 2003 fundou a Ong - Associação futebol Arte (AFA) em parceira com um grupo de pensadores e pesquisadores na área de pedagogia e treinamento de Futebol. Associação esta que construiu uma metodologia própria para a aprendizagem e desenvolvimento do futebol privilegiando o jogo e a formação de jogadores de futebol inteligentes, aplicando-a com sucesso na equipe do Paulínia FC.
 
É colaborador voluntário da Universidade do Futebol desde a sua fundação.

Em relação à dimensão profissional é docente do curso de Ciências do Esporte na Faculdade de Ciências Aplicadas (FCA) da UNICAMP, onde coordena o Laboratório de Pedagogia do esporte e estudos avançados sobre o Jogo.
Coluna
As brincadeiras e os esportes: características peculiares
Estudo detalhado das duas práticas é importante para a compreensão da teoria do jogo
08/06/2008

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"O jogo virou espetáculo".
Eduardo Galeano
 
Tenho convicção de que para melhor entendimento do futebol é preciso conhecer os meandros de sua formação. Descer ao subterrâneo de suas estruturas, desvendando sua lógica, permitindo, desse modo, a construção de uma metodologia de ensino e treinamento do futebol mais eficiente e eficaz, atrelada a uma nova perspectiva paradigmática. 
 
É com essa intenção que almejo escrever esta crônica pedagógica. Inicialmente, procurando compreender as peculiaridades entre os esportes, de uma maneira geral, e as brincadeiras, subsidiando as reflexões sobre as interações sistêmicas existentes no interior da família dos jogos de bola com os pés.
 
Como o professor João Batista Freire, acredito que tanto os esportes quanto as brincadeiras possam ser considerados manifestações de um fenômeno maior denominado jogo. Como escrevemos no livro "Educação como prática corporal": "O jogo é uma categoria maior, uma metáfora da vida, uma simulação lúdica da realidade, que se manifesta, que se concretiza quando as pessoas fazem esporte, quando lutam, quando fazem ginástica, ou quando as crianças brincam".
 
Porém, cada manifestação, além de apresentar determinadas características que a qualifica como jogo, vale-se de tantas outras que garantem sua particularidade e especificidade.
 
Todo esporte adveio da brincadeira, pois tanto a brincadeira como o esporte se caracterizam como produtos culturais, produzidos por alguém ou por um pequeno grupo de acordo com um contexto social específico, que acabou por atrair um grande número de interessados em jogá-lo.
 
Ao longo da história da humanidade, muitos esportes foram assim estabelecidos, como, por exemplo, o jogo de palma, que era muito tradicional, principalmente na Idade Média, até ir incorporando invenções e conteúdos das gerações ulteriores, dando azo ao surgimento do esporte tênis de campo. O tênis, por sua vez, originou outras brincadeiras - frescobol, o padle, o tamboréu... - e até mesmo outros esportes - o squash, o tênis de mesa, o badminton...
 
É assim que o esporte passa a ser, segundo Manuel Gomes Tubino em seu livro "O que é esporte", "... um fenômeno profundamente humano, de visível relevância social na história da humanidade e intimamente ligado ao processo cultural de cada época".
 
É notória a ascensão do esporte na sociedade e também é evidente sua diferenciação das brincadeiras, porém seria incorrer em grave equívoco negligenciar o fato de que, apesar de o esporte ter suas regras rígidas, se é um fenômeno cultural, não o é cristalizável, desse modo, ele continua a sofrer influências dessa sociedade que o gerou, e na qual está inserido.
 
Por exemplo: o esporte tem sofrido constantes mudanças a partir dos novos contextos sócio-econômicos globalizados - algumas superficiais e outras profundas, que acabam até por descaracterizá-los (mas não deixando de ser esporte) -, como no caso do futebol de salão, que pelas modificações e fusões acabou se transformando em outro esporte, o futsal. Já o voleibol passou por processo semelhante, todavia não originou outro esporte, mas para atender às necessidades da TV mudou a forma de contar os pontos. Isso gerou sistêmicas mudanças táticas e estruturais no jogo como um todo. Mas, também, ao mesmo tempo sua maciça divulgação tem potencializado suas características de processo, servindo de conteúdo para o surgimento de inúmeras novas brincadeiras. 
 
Porém, para dar mais objetividade a esta crônica pedagógica, reuni algumas características peculiares que podem caracterizar melhor, principalmente as diferenças no tocante às respectivas organizações internas das brincadeiras e dos esportes. Quanto às semelhanças, só o fato de terem origem comum as justificam.
 
As características peculiares que abaixo relaciono estão longe de objetivar propor uma ruptura definitiva e pontual entre brincadeira e esporte, mesmo porque ela não existe, mas apenas apresentam evidências essenciais que justifiquem suas respectivas identidades.
 
Sendo assim, uma das características peculiares das brincadeiras e esportes são suas regras, e para melhor entendimento de minha linha de raciocínio, quero utilizar a brincadeira de bétis (ou taco) como exemplo ilustrativo.
 
Para se organizar um campeonato mundial de bétis, será preciso unificar suas regras a partir da escolha de algumas entre as inúmeras existentes, para que dessa forma um jogador do Brasil possa jogar com um Japonês sem precisar falar ou entender a língua do outro. Basta para o jogo acontecer que entendam a língua do esporte a partir de seu livro universal de regras.
 
A brincadeira de bétis é uma manifestação de jogo muito interessante, pois a convenção feita pelos meninos mais velhos aliada à tradição que perpassa as gerações dos menores faz com que o jogo tenha regras diferentes em cada rua. As regras básicas são mantidas, não descaracterizando o jogo. Todavia, existe uma infinidade de particularidades nas regras que acaba por impedir um jogador que não as conheça consiga jogar.
 
Essa flexibilidade das regras faz com que um número reduzido de pessoas se reúna em torno do jogo, apenas indivíduos de uma mesma região. Contudo, isso não quer dizer que poucos joguem bétis. Pelo contrário, existe um número expressivo de grupos de jogadores de bétis, mas cada qual com regras que se adaptam melhor à sua rua, bairro, cidade, região...
 
Outras brincadeiras desenvolvem processos análogos, como a amarelinha. Aparentemente ela apresenta regras rígidas, mas um olhar cabal para tal atividade lúdica constatará que cada grupo estabelece as regras específicas que valem no seu jogo de amarelinha.
 
Ou seja, o padrão essencial do jogo é mantido - no caso, pular alternadamente com um pé depois com dois -, mas as variações são inúmeras, como, por exemplo, pisar ou não no céu ou no inferno; validar ou não o pulo se pisar nas linhas divisórias; jogar a pedra do céu ou do lugar onde se parou antes de errar; cantar uma ladainha caso a pedra pare no meio das casas - meia, meia, meia lua, lua inteira, dentro ou fora, fora ou dentro... Além dessas regras, existem outras que determinam a seqüência do jogo e a forma do desenho do jogo no chão. Chega-se ao ponto de pular as casas tendo de levar a pedra equilibrada nos pés e depois na cabeça.
 
Essa mesma constatação fez Jean Piaget, quando iniciou suas pesquisas sobre o juízo moral, e para isso utilizou o jogo das bolinhas de gude. Ele detectou uma infinidade de variantes do jogo, necessitando escolher apenas um - o jogo do quadrado - e ainda apenas esse jogo que acontece em determinada região.
 
Mesmo com regras díspares, pode-se dizer que os objetivos das brincadeiras tendem mais ao prazer, devido a sua gratuidade e, conseqüentemente, à liberdade de se expressar. Isso significa colocar no jogo o seu entendimento e os seus desejos, atribuindo mais valor a isso do que ao desempenho - entendido como uma recompensa gerada pelo sucesso no jogo. Isso não quer dizer que nos jogos/brincadeiras não exista performance nem competição, e que não se joga seriamente uma brincadeira para ganhar, porém essas estão vinculadas mais às auto-superações do que às recompensas extras possibilitadas pelo jogo.
 
É muito comum ao observar no desenvolvimento das brincadeiras seus jogadores preferirem cooperar a vencer o jogo com facilidade. Na brincadeira, devido aos atributos que as incluem na família do jogo, sua complexidade diz que algo a mais está em jogo do que simplesmente a vitória, ao mesmo tempo em que o jogo se encerra em si. Esse algo a mais pode se resumir na superação individual, no prazer gerado pela possibilidade do se expressar e de jogar o jogo em si, muitas vezes mais importante do que, propriamente, a vitória sobre o adversário.
 
Lembro-me da minha infância, quando jogávamos pelada: se um time começava o jogo fazendo dois ou três gols logo de início, o jogo parava e os times eram escolhidos novamente, ou então, para não se perder mais tempo, um dos jogadores já gritava: "Eu, fulano e beltrano, contra rapa".
 
A desigualdade numérica - proibida pelas regras do esporte -, trazia o desafio à nossa brincadeira. No jogo só se tem prazer se existe o risco, se se estabelece um ambiente ao mesmo tempo desafiador, desequilibrador, imprevisível e lúdico. 
 
A dificuldade colocada livremente em minha brincadeira de bola com os pés - na verdade, eu e meus amigos estávamos ressignificando o futebol -, evidenciava mais a vontade da turma jogar (prazer do jogo, da tentativa de superação, aliada ao teste de nossas habilidades sem o peso da coação), do que a necessidade de vencer o jogo.
 
No esporte, também se tem o prazer ao jogar - é um dos atributos que ainda o caracteriza como jogo. Contudo, a busca obsessiva por performance, que pode ser considerada como uma das re-significações absorvidas pelo esporte - advindas das sociedades -, se sobressai na maioria das vezes, mais que o prazer em praticá-lo.
 
Isso se deu de maneira mais efetiva no esporte no transcorrer do século XX, a ponto de hoje o ideário olímpico ter sucumbido frente à avassaladora indústria esportiva, à lavagem de dinheiro, à corrupção, além de outras mazelas parasitárias - nas quais se enquadram as indústrias de materiais esportivos, as de marketing especulativo, as mídias...
 
Atualmente, são cada vez maiores as denúncias sobre atletas que burlam as regras no esporte, como, por exemplo, valendo-se de substâncias sintéticas proibidas para superar seus limites. A máxima da vitória a qualquer preço.
 
Esse fato de "roubar no jogo" de forma imoral é na brincadeira algo inaceitável, pois as regras do jogo são na verdade convenções coletivas aceitas por todos os que jogam, não sendo permitido que se burle regras de maneira acintosa. Se isso acontece o jogo acaba, perde a graça.
 
Importante destacar também que esse "roubar" no jogo não inclui, por exemplo, o blefe, ou então, a tentativa de enganar taticamente o adversário, mesmo porque existem jogos que são desenvolvidos basicamente em cima de atitudes como essa.
 
Por exemplo, o jogo de truco, ou mesmo outros jogos, como o de futebol. Quando a bola se encontrava nos pés de Garrincha, ele ludibriava seus adversários através de literais blefes motrizes.
 
Logo, as regras, quando assumem peculiaridades de produções coletivas anônimas, apresentam características flexíveis, o que leva as brincadeiras se adaptando ao grupo que joga. O que não acontece com os esportes, pois tendo suas regras rígidas faz com que os jogadores tenham que se adaptar às exigências - forma - para poderem jogar. Como por exemplo, se quero aprender a jogar o esporte voleibol devo respeitar suas regras de modo a não correr o risco de cometer infrações como dar dois toques na bola ou carregá-la.       
 
Todavia, com a intenção de trazer mais detalhes de modo a alimentar a discussão sobre o esporte e as brincadeiras, destacando suas semelhanças e diferenças, quero apresentar um breve histórico sobre a evolução das brincadeiras de bola com os pés perpassando o surgimento do esporte futebol, visto que esses constituem o alvo deste espaço de construção de conhecimentos pedagógicos no futebol.
 
Mas para isso quero escrever nova crônica pedagógica.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br
Tags: pedagogia

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