Esta semana ao vasculhar minha biblioteca em algumas prateleiras que há muito não visitava, deparei-me novamente com o pequeno, porém grandioso em seu conteúdo, livro de João Antonio intitulado "Afinação na arte de chutar tampinhas".
Este conto foi extremamente importante para me instigar e ajudar na construção de algumas hipóteses que aventava transformar em tese em meu doutorado.
João Antonio é um dos grandes escritores brasileiros, desconhecido do grande público, mas muito aclamado por personalidades como os escritores Antonio Cândido, Alfredo Bosi, José J. Veiga. Suas obras mais conhecidas são: "Malagueta, Perus e Bacanaço" e "Leão-de-Chácara", além de "A casa de Loucos" e "Dedo-duro".
Mas o conto que me inspirou apresenta particularidades muito pertinentes aos meus estudos, principalmente no que tange à tomada de consciência da ação e a compreensão do fazer.
O escritor João Antonio, nas palavras de acadêmico imortal J. J. Veiga, "um brasileiro dotado de grande capacidade de observação", criou um personagem que ao longo do conto vai descrevendo com detalhes o seu prazer em chutar tampinhas, e o que mais me chamou a atenção foi o detalhamento do processo de afinação desta arte.
A partir do texto de João Antonio, transcrevo um pequeno excerto de sua obra:
"Há algum tempo venho afinando certa mania. Nos começos chutava tudo o que achava. A vontade era chutar. Um pedaço de papel, uma ponta de cigarro, outro pedaço de papel. Qualquer mancha na calçada me fazia vir trabalhando o arremesso com os pés. Depois não eram mais papéis, rolhas, caixas de fósforo. Não sei quando começou em mim o gosto sutil. Somente sei que começou. E vou tratando de trabalhá-lo, valorizando a simplicidade dos movimentos, belezas que procuro tirar dos pormenores mais corriqueiros da minha arte se afinando. Chutar tampinhas que encontro no caminho. (...) Posso diferenciar ao longe que tampinha é aquela ou aquela outra. Qual marca (se estiver de cortiça para baixo) e qual a força que devo empregar no chute. Dou uma gingada e quase já controlei tudo. Vou me chegando, a vontade crescendo, os pés crescendo para a tampinha, não quero chute vagabundo. Errei muitos, ainda erro. É plenamente aceitável a idéia de que para acertar, é necessário pequenas erradas. (...) Porque como as coisas, as tampinhas são desiguais. Para algumas que vêm nas garrafas de água mineral, reservo carinho. Cuidado particular, jeito. É doce chutá-las bem baixo, para subirem e demorarem no ar. Ou de lado, quase com o peito do pé, atingindo de chapa. Sobem. (...) Descobri com encanto que meus sapatos de borracha se prestam melhor para apurar minha tarefa. (...) A borracha apenas toca o cimento, a tampinha desliza, vai embora. Necessário equilibrar a força dos pés. (...) E mesmo calçando-os fico estudando os chutes. Necessário valorizá-las como merecem, ir trabalhando os pontapés com cautela, até que a borracha se aproxime de leve e atinja a tampinha e a faça subir, voar, pequenas distâncias atravessando a noite. (...) Porque desenvolvo variações, aprendo descobrindo chutes, chaleiras, usando o calcanhar, os lados dos pés. Com o direito, com o esquerdo, meio de lado... Tentativas. Consigo por exemplo embocá-las nos bueiros da rua. Se é impossível trabalhar na calçada, passo para o asfalto e fico a chutar".
Ao final deste texto de João Antonio me recordo dos estudos de Jean Piaget no livro "Fazer e compreender", e ao mesmo tempo entendo o quanto uma metodologia de ensino e treinamento em futebol que contemplasse e prestigiasse espaço para jogadores e alunos falar sobre suas respectivas ações, buscando conceituá-las, ou seja, compreendê-las, ampliar-se-iam exponencialmente os possíveis que compõem os repertórios de ações.
Em outras palavras, os alunos das escolinhas de futebol e jogadores (que compõem as equipes de especialização) ampliariam suas respectivas inteligências - entendida enquanto capacidade de adaptação -, aproximando cada vez mais pensamento e ação. Pois ao ampliar o leque de possíveis, maiores são as possibilidades do surgimento do inédito e imprevisível, que são totalmente pertinentes e compatíveis às exigências de um jogo de futebol que também sempre vive da emergência do inédito e imprevisível.
Ou de modo similar, só que descrito com outra linguagem, é possível constatar a mesma coisa neste interessante vídeo case (veja o vídeo abaixo) produzido na Universidade do Futebol, onde são descritas as inovações tecnológicas e metodológicas implementadas pelo professor João Paulo Medina, quando de sua passagem pelo Internacional de Porto Alegre há 10 anos, na administração singular de seu presidente Fernando Miranda.
Trabalho desenvolvido no S.C. Internacional em 2000.
Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br