Ultimamente tenho estudado uma pesquisadora singular, a psicóloga americana Judith Rich Harris. Ela é especialista nos estudos sobre o desenvolvimento infantil, mais particularmente investigando a personalidade. Especialistas sobre este assunto existem muitos, mas sua singularidade se marca pela coragem em quebrar paradigmas arraigados nesta área.
Apesar de ter concluído o seu mestrado na aclamada universidade de Havard em 1961, quando publicou um artigo na Psychological Review e na sequência o livro “Diga-me com quem anda...”, não era docente de nenhuma universidade, porém nas próprias palavras de um dos maiores expoentes no assunto, o psicólogo e especialista em psicolinguística Steven Pinker - autor de “Tábula Rasa”, entre outros -, confidenciou: “Há três anos, um artigo publicado na Psychological review mudou para sempre a minha maneira de ver a infância e a criança”.
As proposições de Harris se concentram a partir dos inquietantes estudos sobre o inato e o adquirido. Ou seja, quanto do que sabemos e fazemos vêm como herança genética ou são adquiridos pelas experiências que passamos ao correr da vida, principalmente na infância.
O senso comum – pensamento popular-, é sempre propenso a atribuir as qualidades de uma pessoa ao inato (a questão do dom, do talento nato, da vocação divina...). Já a ciência se opõe às inferências simplistas, a ponto de em determinado período da história, a ciência estar propensa a apenas validar o que a experiência (empírica) poderia explicar.
Os estudos em psicologia apesar de não descartar alguma contribuição genética, seguindo o curso da história da ciência, acabou sendo influenciada e voltando suas atenções aos estudos do comportamento, estabelecendo a corrente Behaviorista de estudos psicológicos.
Segundo a própria Harris, a crença básica do Behaviorismo é: “a de que as crianças são maleáveis e que é o meio delas, e não as qualidades inatas tais como o talento e o temperamento, que determina o seu destino”.
Sendo assim, para os behavioristas clássicos, adeptos das ideias de John B. Watson, ao se controlar o meio é possível moldar as crianças de modo a formá-las como se bem quiser, ou seja, condicioná-las, treiná-las a ser o que os outros (a sociedade) querem e ou esperam.
Já B. F. Skinner, formulador de um behaviorismo mais promissor, não foge destes preceitos, mas valoriza as questões do reforço positivo ao invés do condicionamento.
Desse modo, a personalidade para os Behavioristas (ainda mantendo relação com a teoria Freudiana) partem da crença, segundo Harris, de que os pais influenciam o desenvolvimento de seus filhos por meio de recompensas e dos castigos que distribuem.
Este pensamento foi ampliado para professores e treinadores autoritários. Logo, estes seriam os principais responsáveis por moldar (formar; manipular; adestrar...) os alunos e jogadores como bem queriam e, como já mencionei, como a sociedade esperava.
Isto explica também mais uma vez como se formou o método tecnicista, não só no esporte, mas em todas as searas formativas. Ou mesmo como se arraigou este autoritarismo de professores, militares, treinadores, ou qualquer líder que deixa sua liderança advir mais do inconsciente do que da ação consciente e calculada a partir dos estudos sobre gestão de pessoas.
Contudo, voltando aos estudos de Judith Harris, sua contribuição foi a de exatamente mostrar que estas pessoas, em especial os pais, não têm este poder todo que os Behavioristas acreditam no que tange a formação das crianças.
O mesmo se pode dizer sobre a genética (o inato), pois Matt Ridelly, autor do livro “O que nos faz humanos”, afirma que: “Os genes não restringem a liberdade humana – eles a possibilitam”. Ou então, segundo o especialista em genética do comportamento da Universidade Federal de Santa Catarina, o professor André Ramos: ”A genética não é um destino, não determina o que você vai ser.Ela oferece predisposições”.
Sendo assim, ao se diminuir os poderes determinantes dos genes (inato) e se restringindo as ações condicionantes de pais, professores e treinadores autoritários, cabe a quem a maior influência na formação da personalidade de nossas crianças e jovens?
E é exatamente neste ponto que as ponderações de Judith Harris ganham importância, e se alinham as de Steven Pinker, quando este afirma que a personalidade é determinada pelo acaso.
Não um acaso simplista, sem explicações (ou sem querer), mas um acaso complexo em que as peculiaridades individuais em constantes relações (processo organizacional) com o meio e suas experiências sociais (para Harris o maior determinante) podem fornecer indícios para as explicações particulares e não mais generalista (como o paradigma positiva tanto apregoava) sobre como se forma a personalidade.
Mas como tudo isto se encaixa com o futebol? Com a pedagogia do futebol?
Sei que não precisaria explicar, mas para concluir minhas reflexões tenho certeza que este é um conhecimento básico e necessário para quem pensa na formação de jovens futebolistas.
Quem investe milhões na formação de jogadores (como os clubes formadores), ou quem ter por função profissional ser treinador, professor, gestor, psicólogo, médico, assessor, agente de futebol, tem por obrigação (se não quiser ser mais um no mercado) compreender como pode contribuir com a formação destes meninos, os quais depositam neles confiança para realizar seus sonhos futebolísticos.
Só para concretizar, ilustrar e inquietar com esta reflexão. De posse desses conhecimentos, como deveria ser um alojamento de jovens potenciais atletas? Como hoje, um local de confinamento, engorda e, muitas vezes, abate? Ou como um ambiente rico e diversificado onde seria instalado um programa de desenvolvimento pessoal, social e profissional? O qual garantiria a possibilidade de continuada formação destes potenciais jogadores de futebol e não mais um espaço para que o condicionamento imperante e operante forme jovens jogadores com todos os mesmos vícios e equívocos detectados nos mais velhos.
O ambiente (o adquirido) do futebol (e do esporte em geral) precisa ser cada vez mais estudado, investigado e discutido, mas para isto será necessário quebrar os muros que separam as universidades das confederações, federações, clubes, equipes... e a também da sociedade (pais, agentes, jornalistas...).
Portanto, o ditado, muito apropriado para o título do livro de Judith Harris: diga-me com quem andas, que te direi quem és, agora comprovado pelos estudos científicos, não podem ser mais descartados pela pedagogia do esporte em toda sua área de abrangência e atuação.
Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br