Tenho estudado a teoria do jogo há algum tempo. E ao estudar o jogo, estou ao mesmo tempo a decifrar o futebol e seu processo organizacional e pedagógico, pois o jogo é o fenômeno maior e o futebol é uma de suas manifestações. Estudar um é compreender o outro.
Assim, depois de ler autores como Huizinga, Brougère, Caillois, Kishimoto, Freire, entre outros, conceituo jogo como "um sistema complexo em que seu ambiente (contexto) determinará o que é jogo e não jogo, evidenciando a predominância da subjetividade em detrimento da objetividade, caracterizando o ESTADO DE JOGO - o jogar plenamente".
O estado de jogo evidencia na verdade o ato de jogar, logo ao invés de me ater no jogo, centro esforços para entender o ser que joga e é envolvido pelo jogo, em ambiente de jogo.
Desse modo, quando me refiro ao ambiente de jogo, estou a falar sobre a perspectiva da criança adquirir a possibilidade de ser o Ser do Jogo, aquela que através do jogo tem a possibilidade de se expressar verdadeiramente, sem a coação de um adulto ou outro indivíduo qualquer que se encontra alijado do jogo.
Nesta perspectiva a criança cede voluntariamente às imposições do Senhor do Jogo (o organizador metafórico do jogo), que com o seu vaivém inebriante, envolve o jogador e o leva ao Mundo do Jogo. Mundo dos possíveis; mundo de busca de satisfação dos desejos.
No ambiente de jogo, representado pelo Mundo do Jogo, a criança joga e é jogada, pois ela é uma das estruturas básicas que compõem a unidade complexa em questão, e só joga ao interagir com as outras estruturas de forma complexa.
O Mundo do Jogo é o espaço fantástico em que se tem a possibilidade de ser quem realmente somos, sem máscaras, como sinceras e verdadeiras crianças. No jogo as máscaras caem, no mundo real elas voltam, como no poema de Álvaro de Campos (heterônomo de Fernando Pessoa):
Depus a máscara e vi-me ao espelho...
Era a criança de há quantos anos...
Não tinha mudado nada...
É essa a vantagem de saber tirar a máscara
É-se sempre a criança,
O passado que fica,
A criança.
Depus a máscara, e tornei a pô-la.
Assim é melhor:
Assim sou a máscara.
E volto à normalidade como a um términus de linha
Álvaro de Campos, descrito por seu criador, Fernando Pessoa, como engenheiro naval, em outro revelador poema anunciou preceitos peculiares do ato de jogar, do Ser do jogo e especialmente do Mundo do Jogo.
Quando li pela primeira vez o poema "Datilografia", foi como se as peças (meus estudos sobre o jogo) em desordem se auto-organizassem. O poema diz:
Traço sozinho, no meu cubículo de engenheiro, o plano
Firmo o projeto, aqui isolado,
Remoto até de quem eu sou.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Que náusea da vida!
Que abjeção esta regularidade!
Que sono este ser assim!
Outrora, quando fui outro, eram castelos e cavaleiros
(ilustrações, talvez, de qualquer livro de infância),
Outrora, quando fui verdadeiro ao meu sonho,
Eram grandes paisagens do Norte, explícitas de neve,
Eram grandes palmares do Sul, opulentos de verdes.
Outrora.
Ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
O tique-taque estalado das máquinas de escrever.
Temos todos duas vidas:
A verdadeira, que é a que sonhamos na infância,
E que continuamos sonhando, adultos num substrato de névoa;
A falsa, que é a que vivemos em convivência com os outros,
Que é a prática, a útil,
Aquela em que acabam por nos meter num caixão.
Na outra não há caixões, nem mortes,
Há só ilustrações de infância:
Grandes livros coloridos, para ver mas não ler;
Grandes páginas de cores para recordar mais tarde.
Na outra somos nós,
Na outra vivemos;
Nesta morremos, que é o que viver quer dizer;
Neste momento, pela náusea, vivo na outra...
Mas ao lado, acompanhamento banalmente sinistro,
Ergue a voz o tique-taque estalados das máquinas de escrever.
A vida em que vivemos é a do jogo (o mundo do jogo), a vida em que morremos é o mundo real, que nos consome e muitas vezes nos impede de sermos quem realmente gostaríamos de ser.
A coação do mundo real é algo que as crianças conseguem lidar muito bem, por isso não precisam de máscaras, mas sim de jogo, pois no brincar se realizam e todas as vezes que são envolvidas pelo Senhor do Jogo, são conduzidas ao universo da aprendizagem, onde podem aprender o que quiserem, e isto incluir se tornar um grande pequeno jogador de futebol.
Infelizmente, o adulto esquece o caminho do jogo, como relata Michel Ende em seu revelador livro "História sem fim", e ao esquecê-lo deixa de acreditar que seus filhos devam um dia conhecer este mundo, para lá aprender a ser o poderoso Ser do Jogo.
E é assim que alguns pais, quando matriculam seus filhos nas escolinhas de futebol e quando observam que o professor está brincando com eles, berram aos quatro ventos: "Estou pagando para meu filho brincar?"; "Meu filho veio para aprender futebol e não para brincar"...
Pobres adultos, deveriam se recordar da infância; deveriam retirar a máscara, e compreender o que Álvaro de Campos aprendeu depois de sua viagem ao oriente, que originou em um de seus poemas mais famosos o "Opiário".
(...)Partir!
Nunca voltarei,
Nunca voltarei porque nunca se volta.
O lugar a que se volta é sempre outro,
A gare a que se volta é outra.
Já não está a mesma gente, nem a mesma luz, nem a mesma filosofia(...).
A infância não volta mais, mas para o jogo não se tem idade. E como todo jogo é uma viagem (ao mundo do jogo), no retorno estamos diferentes, como disse o poeta português: "O lugar a que se volta é sempre outro".
O diferente é decorrente das adaptações necessária a que o jogador é submetido. Adaptações exigem reorganização de nossas estruturas internas, desse modo, a cada problema do jogo que exige adaptação deixará o jogador mais inteligentes, logo volta do jogo acrescido, assim não é mais o mesmo, não vê o mundo mais do mesmo: "A gare que se volta é outra".
Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br