Colunas
07/04/2010
Crianças podem brincar de futebol
Ato é fundamental para a ampliação e diversificação do acervo de possibilidades de respostas para o jogo

Há alguns bons anos estudo a pedagogia da rua. E meus trabalhos acadêmicos, tanto na Educação Física escolar, quanto na Pedagogia do Esporte, são impregnados por suas peculiaridades.

Foi a pedagogia da rua que me levou a estudar o jogo, junto com o professor João Batista Freire, e cada vez mais confirmar as certezas (paradoxalmente, as antigas hipóteses) de que o brincar é fundamental para a ampliação e diversificação do acervo de possibilidades de respostas para o jogo.

Quem joga é muito mais rápido nas tomadas de decisão, na capacidade de resolver problemas, ou seja, sempre estará mais apto a ser bem sucedido nos imprevisíveis embates em que se lança, do que aqueles que são programados pela metodologia tecnicista a reproduzir alguns simples modelos gestuais, os quais na grande maioria não o habilitam a ser um audaz jogador.

Contudo, sempre, invariavelmente, com frequência desconcertante, respondo em minhas palestras, cursos e aulas a mesma questão dos professores: "apesar de concordar com o senhor em tudo, os pais na escolinha que trabalho dizem que não pagam para que seus filhos brinquem. Eles devem treinar! O que eu faço?".

A resposta tem vários caminhos:

 O mais longo faz um passeio pelas teorias de autores respeitados como Piaget, Vigotski, Wallon, Winnicott, entre outros, os quais discorrem em suas pesquisas sobre como o brincar possibilita a aquisição de conhecimento significativos;

 O mais curto e grosso afirma que o professor é você, aquele que estudou, se preparou e sabe o que deve ser feito a partir de conhecimentos científicos atualizados, e, por exemplo, por analogia, pode-se dizer que os pais não entram na sala de cirurgia para dizer como os médicos devem proceder na operação de fimose de seus filhos. Logo, a você e a seu trabalho se deve o mesmo respeito;

 O mais agradável relata os estudos do professor João Batista Freire, um dos pioneiros na investigação e sistematização da pedagogia da rua. Autor do livro didático "Pedagogia do Futebol", a meu ver a "bíblia" de todos os professores que atuam nas escolinhas de futebol, pode ser boa indicação aos inquietos e fastidiosos pais;

 O mais revelador perpassa a biografia dos nossos craques de bola. As escolinhas de futebol eclodem na década de 1990, logo, onde se aprendia a jogar (e jogar tão bem) futebol antes disso?

A rua era, na verdade, o local mais adequado em tempos atrás para manifestação do lúdico (liberdade de expressão), facilitando a criação de um rico ambiente de jogo e de aprendizagem significativa para seus intrépidos jogadores de bola.

Faz-se necessária uma rápida visita aos livros que contam as histórias de
vida de nossos expressivos e mais importantes jogadores de futebol, os quais colaboraram para a determinação e lapidação de um estilo idiossincrático de jogar a bola com os pés. Marca que até hoje coloca o brasileiro em evidência no mundo ludopédico.

Se não há mais "rua", o que antes era feito entre os meios fios e nos campinhos, urge ser reproduzido (a partir de sua sistematização) nas escolinhas. Mas os pais precisam confiar nos professores (em seus conhecimentos científicos) e no processo de aprendizagem pautado no jogo, pois essa metodologia que parte da interação dos ambientes de jogo com os de aprendizagem seguramente tem a possibilidade de formar mais uma geração de espetaculares e inteligentes jogadores de futebol.

Portanto, mais uma vez: liberdade às crianças, para que elas possam, sendo crianças, brincar de futebol, para o bem delas e do nosso amado jogo.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br


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