Colunas
14/04/2010
A infância de nossos craques: uma boa referência às metodologias de ensino para o futebol
O jogo é educativo por natureza. Sua essência é gerar aprendizagem

Vivemos, feliz ou infelizmente, de uma monocultura esportiva, sendo a prática do futebol impregnada indelevelmente em nossas tradições e contemporaneidade.

Apesar de as crianças estarem brincando diferente, brincar de bola com os pés ainda é uma grande diversão.

Apesar de o brinquedo bola não mais figurar a lista dos dez mais pedidos no natal, ainda se tem muita bola rolando nos mais inóspitos algures de nosso país.

Apesar de se estar rareando os espaços, como campinhos de várzea ou terrenos baldios, ainda é possível constatar quadras e afins sendo utilizadas para a prática do futebol.

Apesar de os timinhos de rua perderem espaços para as escolinhas, ainda se encontram líderes mirins congregando e convocando garotos para um jogo contra.

Apesar de se tentar fabricar programados jogadores por meio da metodologia tecnicista, ainda hoje no Brasil as crianças "nascem" com uma bola nos pés, explorando-a ao extremo.

O jogo é educativo por natureza. Sua essência é gerar aprendizagem, confirmam inúmeros estudiosos sobre a teoria do jogo, dentre os quais posso destacar a professora Tizuko Morchida Kishimoto e o professor João Batista Freire, em seu livro "O jogo: entre o riso e o choro".

Há muito tempo, o próprio professor João Batista Freire defende a tese da pedagogia da rua, afirmando que esta se funda na rica diversidade de estímulos lúdicos presentes em nossa cultura infantil, mais especificamente na cultura das brincadeiras de bola com os pés.

Em um rápido passeio pelo primeiro capítulo da singular obra "Estrela Solitária", de nosso valioso escritor Ruy Castro, cujo livro relata a história do anjo das pernas tortas, Garrincha, será possível constatar sua riqueza, principalmente, no que tange os diversificados estímulos advindos das infindáveis brincadeiras infantis realizadas.

Ele, além de maestro com a bola nos pés, era campeão na arte de caçar passarinhos, nadar, subir em árvores, etc., sem deixar de falar sobre o campinho todo esburacado em que era praticado o jogo.

Mas minha grata surpresa foi me deparar com a rica coleção de livros da editora Callis, intitulada "Pequenos craques". Ou seja, esta coleção foi destinada para se escrever pequenos livros infato-juvenis sobre a infância de alguns jogadores famosos.

A escritora responsável pela coleção é a paulistana Paola Gentile, que já escreveu três livros. Um deles conta a história de Leônidas da Silva; outro, de Garrincha; e por fim, o do Rivelino. Os três livros confirmam a nossa tese junto com a do professor João Batista Freire e, principalmente, destaca neste excerto:

"Quando Beto [Rivelino] tinha 9 anos, Seu Mamede, diretor do Banespa, viu-o jogando e ficou impressionado com seu chute de esquerda - ainda que o Beto não fosse canhoto para escrever.

O diretor chamou o menino para integrar a equipe do clube.

- Ah pai, não vou, não. Para que jogar em lugar fechado e com gente que não conheço, se posso brincar de futebol na rua com meus amigos?"

Portanto, é mais um livro que aborda o assunto com propriedade de gente grande e nos serve como base para a construção e consolidação das novas tendências em pedagogia do esporte.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br  


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