Colunas
03/06/2010
A Fifa e o poder
A representatividade da eleição geral em Trinidad & Tobago para o futuro da estrutura do futebol

No dia 24 de maio de 2010, pouco mais de uma semana atrás, houve eleições gerais em Trinidad & Tobago, que resultou na eleição de Kamla Persad-Bissessa como primeira-ministra do país e colocou seu partido, o United National Congress, novamente no poder, coisa que havia perdido em 2001.

A princípio, esse fato não tem nada a ver com o mundo do futebol. Entretanto, sob uma análise mais profunda, tem tudo. É, na verdade, um dos fatos mais importantes da geopolítica do futebol nas últimas décadas.

Isso porque o novo ministro dos transportes de Trinidad & Tobago acabou de ser nomeado: Austin ‘Jack’ Warner, uma das figuras mais influentes do UNC, que calha de ser o presidente da Concacaf desde 1990 e um dos vice-presidentes da Fifa. O mandato de Jack Warner acaba em 2011 e, com o novo cargo de ministro dos transportes de Trinidad & Tobago, tudo indica que ele deixará por fim a confederação continental.

Jack Warner é uma das figuras mais importantes, e controversas, do futebol mundial. Afinal, ele controla como poucos uma região que pode não ser muito importante para o cenário competitivo do futebol, mas tem um papel político fundamental. Afinal, a Concacaf é formada por 35 países, na maior parte minúsculos, o que faz com que eles dependam muito da confederação e, portanto, aceitem votar em bloco. Ou seja, Jack Warner controla 35 dos 208 votos do Congresso da Fifa –um papel fundamental em qualquer votação realizada na entidade, principalmente na eleição para presidente.

Ser presidente da Fifa deveria ser um dos cargos mais almejados do planeta. Afinal, você comanda o futebol mundial e é recebido com honras de chefe de Estado em qualquer lugar que vá. Cerimonial, condecoração, tapete vermelho, jantar de gala, guarda imperial e tudo mais, mesmo sem ser de fato presidente de país algum. Sensacional.

Curiosamente, porém, você raramente vê uma corrida presidencial na Fifa. Em 106 anos, ela só teve oito presidentes, o que dá em média quase quatorze anos de mandado pra cada um. Obviamente, em uma organização que tem um colégio de mais de 200 eleitores, isso não é fácil. Para chegar e, principalmente, se manter no poder, é preciso ter uma grande desenvoltura política. Daí, portanto, coisas como rodízio de continentes para sediar a Copa do Mundo e ampliação do número de times participantes na competição. É preciso agradar o maior número possível de pessoas. Caso contrário, a oposição ao seu poder cresce e sua vida fica mais complicada.

Daí, portanto, a importância de Jack Warner para o mundo do futebol. Daí, também, a tolerância que a Fifa sempre teve com o personagem que foi centro de uma série de escândalos de corrupção, como revenda ilegal de ingressos para a Copa de 2006 e o recebimento pessoal de pagamento por amistoso da seleção do seu país. Por conta disso, a saída de Warner da Concacaf será um alívio para a Fifa, que deverá colocar em seu lugar algum outro presidente que continuará a representar o voto em bloco da confederação. Ainda assim, isso é incerto, uma vez que qualquer mudança na estrutura do poder pode representar um futuro enfraquecimento do establishment.

O Congresso da Fifa dos próximos dias deve manter Blatter no poder pelos próximos quatro anos. Mas ao que tudo indica, este deve ser o último mandado do presidente, já que com 74 anos o ritmo não é mais o mesmo. Isso significa dizer que deverá haver uma mudança de presidência em junho de 2014 e que a competição será acirrada entre diversos candidatos. Aparentemente, existe muita gente querendo o cargo máximo do futebol mundial.

Uma eventual quebra do bloco da Concacaf pós-Warner pode ser determinante na eleição. Uma união dos países europeus e asiáticos, também. Ao que tudo indica, a disputa será ferrenha. Negociações serão realizadas. Favores serão cedidos e cobrados. Mudanças deverão acontecer. Inclusive, no número de seleções que disputarão a Copa de 2014, pulando de 32 para 36. Essa me parece bem possível. Com mais uma vaga para a Uefa, uma para a AFC, uma para a CAF e, claro, mais uma para a Concacaf.

Para interagir com o autor: oliver@universidadedofutebol.com.br  


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