Ao longo do tempo de estudos, tenho em Leonardo Boff um excepcional professor. A cada livro, ou melhor, a cada parágrafo, desperta em mim uma inquietação prazerosa. Inquietação que me move, fazendo-me ver e entender o mundo a partir das teorias ecológicas e a espiritualidade pela sensibilidade que faz do humano, humano.
Há poucas semanas voltei a ler seu clássico livro "A águia e a galinha", e sua releitura me fez pensar sobre o futebol, mais especificamente, sobre a condição que se impõem aos jovens jogadores de futebol que, movidos pelo sonho, sujeitam-se a tudo, como morar em um alojamento distante da família e de seu mundo.
A metáfora da águia e da galinha, não foi criada por Boff, ela vem da África, contada por um educador popular de Gana, chamado James Aggrey. Para quem não conhece a história, retirei do livro este excerto que sintetiza a metáfora da condição humana.
"Era uma vez um camponês que foi a floresta vizinha apanhar um pássaro para mantê-lo em sua casa. Conseguiu pegar um filhote de águia. Coloco-o no galinheiro junto com as galinhas. Comia milho e ração própria para galinhas. Embora a águia fosse o rei/rainha de todos os pássaros.
Depois de cinco anos, este homem recebeu em sua casa a visita de um naturalista. Enquanto passeavam pelo jardim, disse o naturalista:
"Esse pássaro aí não é galinha. É uma águia."
"De fato" - disse o camponês. "É águia. Mas eu criei como galinha.
Ela não é mais uma águia. Transformou-se em galinha como as outras, apesar das asas de quase três metros de extensão."
"Não" - retrucou o naturalista. "Ela é e será sempre uma águia. Pois tem um coração de águia. Este coração a fará um dia voar ás alturas."
"Não, não" - insistiu o camponês. "Ela virou galinha e jamais voará como águia."
Então decidiram fazer uma prova. O naturalista tomou a águia, ergueu-a bem alto e desafiando-a disse:
"Já que você de fato é uma águia, já que você pertence ao céu e não a terra, então abra suas asas e voe!"
A águia pousou sobre o braço estendido do naturalista. Olhava distraidamente ao redor. Viu as galinhas lá embaixo, ciscando grãos. E pulou para junto delas. O camponês comentou:
"Eu lhe disse, ela virou uma simples galinha!"
"Não" - tornou a insistir o naturalista. "Ela é uma águia. E uma águia será sempre uma águia. Vamos experimentar novamente amanhã."
No dia seguinte, o naturalista subiu com a águia no teto da casa. Sussurrou-lhe:
"Águia, já que você é uma águia, abra as suas asas e voe!"
Mas quando a águia viu lá embaixo as galinhas, ciscando o chão, pulou e foi para junto delas.
O camponês sorriu e voltou à carga:
"Eu lhe havia dito, ela virou galinha!"
"Não" - respondeu firmemente o naturalista. "Ela é águia, possuirá sempre um coração de águia. Vamos experimentar ainda uma ultima vez. Amanhã a farei voar."
No dia seguinte, o naturalista e o camponês levantaram bem cedo. Pegaram a águia, levaram para fora da cidade, longe das casas dos homens, no alto de uma montanha. O sol nascente dourava os picos das montanhas. O naturalista ergueu a águia para o alto e ordenou-lhe:
"Águia, já que você é uma águia, já que você pertence ao céu e não à terra, abra suas asas e voe!"
A águia olhou ao redor. Tremia como se experimentasse nova vida. Mas não voou. Então o naturalista segurou-a firmemente, bem na direção do sol, para que seus olhos pudessem encher-se da claridade solar e da vastidão do horizonte.
Nesse momento, ela abriu suas potentes asas, grasnou com o típico kau-kau das águias e ergue-se, soberana, sobre se mesma. E começou a voar, a voar para o alto, a voar cada vez mais para o alto. Voou... voou... até confundir-se com o azul do firmamento...
E Aggrey terminou conclamando:
"Irmãos e irmãs, meus compatriotas! Nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus! Mas houve pessoas que nos fizeram pensar como galinhas. E muitos de nós ainda acham que somos efetivamente galinhas. Mas nós somos águias. Por isso, companheiros e companheiras, abramos as asas e voemos . Voemos como as águias. Jamais nos contentemos com os grãos que nos jogarem aos pés para ciscar."
Por experiência própria, depois de viver cinco anos de minha juventude em um alojamento, tenho certo de que este espaço se configura, na maioria das vezes, em local de confinamento e engorda, para posterior abate.
Já relatei em crônica antiga (Ambientes de aprendizagem VI) de forma fictícia, por meio de conto, a história real de um jovem menino, ainda pré-púbere, verdadeira águia, que foi retirado da família e do ambiente propício para continuo desenvolvimento de uma águia, para morar em um alojamento e conviver como uma galinha.
Isto é de fácil constatação, em seu ambiente natural o menino-águia jogava futebol a todo o momento. Dormia com a bola, driblava o café da manhã e goleava os amigos na hora do recreio, para não falar das Copas mundiais disputadas ao vespertino.
No galinheiro, o menino deixou de jogar, apenas treinava (muitas vezes mais sem bola, preparando o físico - mais gordo, ou melhor, mais forte, mais lucro para a granja e seus granjeiros) e repetia o que lhe mandavam fazer. Deixou de criar, deixou de brincar, pois tinha que ver pornografia, precisava aprender sobre mulheres, noitada, balada, pois convivia em um mesmo ambiente com jovens e "adultos" de outras categorias (infantis, juvenis e juniores, para não falar de alguns profissionais), sem um responsável competente e preparado para assumir as responsabilidades de formação que toda criança precisa.
Todos chegam diferentes nos alojamentos, verdadeiros potenciais jogadores de futebol (e quantos não existem no Brasil!), porém o convívio em alojamentos e o sistema que exige a passividade, a não reflexão e a submissão aos costumes alienantes, castradores e galináceos, simplesmente os alojamentos/granjas transformam filhotes de águias em pobres galinhas ciscantes.
Portanto, termino esta crônica pedagógica com os ensinamentos de Leonardo Boff: "Não basta apenas liberta-se de. A águia precisa também liberta-se para: para a sua própria identidade e para a realização de seus potencialidades". Ou seja, precisamos formar mais pedagogos do esporte (professores de futebol) como o naturalista da metáfora, para que, inconformados com esta situação, ajude por meio de intervenções didático-pedagógicas estes potenciais jogadores, impregnados com os costumes das galinhas, voltem a ver o sol, o horizonte e, desse modo, possam alçar vôos como verdadeiras águias.
Obs: depois de três anos e 150 colunas encerrei um ciclo na Universidade do Futebol. Agora, principalmente movido por minhas mais novas atribuições estou deixando de escrever colunas semanais, passando a redigi-las mensalmente, como colunista especial.
Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br