Colunas
21/06/2009
As escolas de esportes e a competição
A competição exacerbada macula o esporte. Dificulta-o ser deveras educativo. Facilita a instauração da especialização precoce

O professor Mauro Betti em seu clássico livro “Educação e sociedade”, diz ser um grande equívoco analisar o esporte somente por meio da ótica capitalista, que o fundamenta na competição, ou seja, na medição da objetividade quantitativa, legando ao esporte apenas o seu valor medido pelo resultado alcançado.

Já Albert Einstein, em uma instigante e relevante obra intitulada “Como vejo o mundo”, teceu considerações interessantes sobre a competição, dizendo: “Os excessos do sistema de competição e de especialização prematura, sob o falicioso pretexto de eficácia, assassinam o espírito, impossibilitam qualquer vida cultural”.

Esta competição exacerbada macula o esporte. Dificulta-o ser deveras educativo. Impede o desenvolvimento de projetos sócio-esportivos. Facilita a instauração da especialização precoce...

Contudo, vejo um enorme equívoco querer assumir o esporte sem a competição, pois ela é inerente ao seu conceito.

Mas, novamente recorrendo aos estudos do professor Mauro Betti, introduzir as crianças à iniciação na competição, não significa para as escolas de esportes (futebol) a missão de produzir atletas, que assegurem o prestígio esportivo nacional. 

Mesmo porque, corrobora Betti, devemos entender a competição como um conteúdo da modalidade esportiva, qualquer que seja em questão, e não como um fim em si mesma.

George Belbenoit complementa dizendo que a competição também pode apresentar virtudes educativas, que não devem ser esquecidas.

Já, para filósofo da Motricidade Humana, o professor Manuel Sérgio, promover a competição é nada mais nada menos, que proporcionar a oportunidade de encaminhar o aluno a superação, num movimento que conduz à paz consigo mesmo e com os outros.

Nos idos da década de oitenta, Seurin já procurava analisar a competição como sendo um fenômeno social educativo. Para isto destaca alguns fatores que lhes são essenciais, evidenciando quatro ângulos de análise.

No primeiro ângulo de análise da competição, Seurin analisa-a como sendo excessivamente seletiva, buscando sempre a exaltação do melhor.

No segundo ele diz: “Mas existe também competição concebida essencialmente com finalidades de educação e de recreação...”. Vê-se então as regras serem adaptadas ou mesmo criadas pelos educadores, a fim de uma melhor assimilação dos objetivos fixados.

No terceiro ângulo de análise, procura mostrar que o homem é um “ser desportivo” por excelência, onde por meio de impulsos para se alcançar sempre o melhor rendimento, procura se desenvolver para sempre estar se superando, e não que isto represente somente a preocupação em vencer o adversário, mas vencendo a si mesmo.

Por fim, no quarto ângulo, preocupava-se em afirmar que muitas vezes estes impulsos são variáveis e podem possibilitar a ação educativa, facilitando aprendizagens significativas.

Ou seja, depois desta exposição de concisos pensamentos, posso afirmar que a competição será aquilo que se quiser fazer dela, desde uma desculpa para a especialização precoce até uma possibilidade de levar o aluno a superar-se. 

E todo este cabedal de possibilidades está nas mãos dos professores/treinadores, aumentando então, em muito sua responsabilidade. Porém, o ideal se alcança através de um clima pedagógico entre o professor/treinador e o aluno/atleta, transformando assim a competição.

Desse modo, as escolas de esportes, em especial as de futebol em nosso país, intermediada pelo professor com sua pedagogia do esporte, deve possibilitar ao aluno uma práxis, que implica na ação e reflexão do homem sobre o mundo para transformá-lo. Pois, segundo Maüler: “... o educando que não problematiza a existência para superá-la será sempre objeto e nunca sujeito da sua própria história”.

Com isso os alunos se tornarão um tanto mais desafiados, quando mais se sentirem obrigados a responder a um novo desafio. E o professor/treinador deve estimular o educando para que este perceba e sinta que o maior desafio é poder competir com ele mesmo, estabelecendo e vencendo os seus próprios desafios e limites. Para ele o competir não terá mais a ver com quem ganha, mais sim se ele vence a si próprio.  

Portanto, as escolas de esportes (futebol) com seus projetos não devem negar a competição. Devem, ao contrário, fazer dela um conteúdo a ser ensinado aos alunos, tendo uma clara visão dos valores que podem e devem ser transmitidos por meio do esporte (com a competição). 

Aos olhos de leigos isto pode parecer uma grande utopia, mas através de ações pedagógicas planejadas pode-se com certeza transformar, senão todos, pelo menos os novos homens que crescem com o esporte. E, sendo assim, como diz a antropologia, os valores adquiridos são culturalmente transmitidos a outras gerações, sistemicamente teremos no futuro transformado boa parte da humanidade, que entenderá que o fenômeno esporte não tem o seu fim e meio na busca pela vitória e pela alta performance, mas também apresenta um grande compromisso educacional, moral e social embutido em todo este processo.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br


Publicidade
Conteúdo Relacionado Vídeos

 
Publicidade
Publicidade