Colunas
30/10/2009
Pontos corridos x Mata-mata
É preciso ficar atento a discussões dessa natureza para não deixar que os princípios básicos do esporte se percam

Caros amigos da Universidade do Futebol,

Um dos pontos polêmicos do modelo de organização das competições nacionais (i.e., campeonato brasileiro) é a formatação do torneio, atualmente realizado em pontos corridos.

O nosso país teve grande tradição e história em campeonatos na forma de mata-mata, isto é, após uma (ou mais) fase(s) classificatória(s), as equipes melhores colocadas passavam a disputar jogos eliminatórios, até a tão esperada disputa final.

Esse modelo de mata-mata, entretanto, do ponto de vista estritamente legal e regulatório, propicia distorções na verificação da justiça dentro das quatro linhas, principalmente, se comparado com a forma de pontos corridos (em que todas as equipes jogam entre si, vencendo aquela que obtiver a melhor campanha).

Assim, de uns anos para cá, a forma de mata-mata do campeonato brasileiro deu lugar aos pontos corridos, à semelhança do que acontece, por exemplo, nas ligas europeias de futebol profissional.

A forma de pontos corridos, de fato, premia a equipe mais regular durante toda a temporada. Vence aquela que mais pontos obtiver. No mata-mata, por vezes, é campeão o time que está em melhor momento na fase eliminatória, podendo vencer tendo somado um número menor de pontos em comparação a outras equipes.

É interessante apontar que a regularidade premiada na disputa de pontos corridos sugere maior segurança jurídica de todos os envolvidos. Em outras palavras, uma equipe regular tende a manter em vigor o contrato de seus jogadores, de sua equipe técnica, etc, ao longo da temporada. Ou seja, a regularidade dentro de campo pode estar diretamente relacionada com a estabilidade contratual dos profissionais do clube.

Assim, entendemos que, do ponto de vista legal, a disputa por pontos corridos é mais coerente e mais justa do que a disputa pelo sistema do mata-mata.

Sob outro prisma, temos a questão comercial. É comum que decisões dessa natureza (escolha da forma da competição) estejam atreladas a uma maior capacidade de geração de receitas.

Esse, entretanto, é um aspecto que foge do escopo da discussão jurídica. Números já foram levantados, existem defensores de uma e de outra forma de disputa. Uns dizem que o mata-mata torna o campeonato mais interessante, com maior arrecadação, principalmente, nas fases eliminatórias. Outros defendem que a disputa por pontos corridos propicia maior número de jogos importantes, com a possibilidade de clubes de baixo da tabela participarem de partidas decisivas no final do campeonato.

A discussão, digamos, mais comercial possui um aspecto jurídico importante a ser ressaltado. Até que ponto a maior geração de receitas pode ser buscada, deixando-se de lado o aspecto da justiça desportiva? Até que ponto pode-se abrir mão de uma forma mais justa de disputa para se obter mais receita?

Acima de tudo, e ainda que se adote uma ou outra forma de disputa no futuro, é preciso ficar atento a discussões dessa natureza para não deixar que os princípios básicos do esporte se percam entre uma e outra cifra.

Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br


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