Em texto anterior expus as ideias básicas sobre a metodologia proposta pela teoria dos Jogos Desportivos Coletivos (JDC), desenvolvida pelos autores portugueses da Universidade do Porto, mas agora quero apresentar sua aplicação para o ensino do futebol.
O professor Júlio Garganta, além de destacar princípios gerais para um processo de ensino de jogos coletivos, junto com Jorge Pinto, apresenta uma proposta de trabalho alicerçada pelas teorias dos Jogos Desportivos Coletivos para o ensino do futebol.
Os autores, coerentes com a metodologia sugerida, partem do princípio que o futebol é um jogo coletivo de oposição e de tática, que exige de seus praticantes um determinado número de habilidades específicas para se jogar, sendo que estas se apresentam influenciadas diretamente pelo acervo motor e compreensão do jogo (inteligência tática).
Sendo assim, a técnica deverá ser desenvolvida segundo o contexto lógico do jogo, respeitando as diretrizes gerais dos JDC sim, além do fato de que Garganta e Jorge Pinto determinarem alguns princípios pedagógicos fundamentais para o ensino do futebol.
Estes princípios dizem respeito às estruturas funcionais: ao tamanho do campo, número de jogadores, tamanho dos alvos (gols) e duração das partidas, freqüência de finalizações e controle de bola. Sendo que muitas vezes os iniciantes não têm um bom domínio e controle da bola, bem como uma capacidade física e mental capaz de cobrir todos os espaços do campo de jogo de 11 jogadores.
Por consequência, determinam que estas dimensões devem ser diminuídas de acordo com o desenvolvimento e nível de habilidades dos praticantes, para que possa haver um maior envolvimento e motivação dos alunos no jogo, de acordo com suas capacidades e competências.
Teoricamente os autores procuram explicar o jogo de futebol como um jogo cooperativo de oposição, resumindo-o em duas ações simultâneas, o ataque (com posse de bola) e a defesa (sem posse de bola).
Para cada uma dessas ações são elencados objetivos, fases e princípios operacionais específicos. O objetivo do ataque é, mantendo a posse de bola, progredir alcançando a finalização. Já a defesa tem por princípios operacionais tentar recuperar a posse da bola, impedir o ataque por meio de coberturas e defender a baliza.
As fases de ataque constituem-se em: construções de ações, criação de situações de finalização e a finalização literalmente entendida. Cabe às fases de defesa se opor, impedindo a construção de jogadas, anulando as situações de finalização e defendendo o gol; logo estes são os conteúdos de aulas e não os fundamentos técnicos.
Quanto aos princípios gerais que regem o jogo, tanto para o ataque quanto para defesa, Garganta e Pinto, no livro "O ensino dos jogos desportivos", refletem uma preocupação assim resumida: "...nas zonas de disputa da bola, relativamente ao efectivo de jogadores, deve procurar criar-se situações de superioridade numérica, evitar as situações de igualdade numérica e sobretudo rejeitar as de inferioridade numérica".
Já os princípios específicos, por sua vez, vêm sintetizar tudo o que foi dito. Nas ações de ataque podemos perceber a necessidade de um avanço no campo adversário (princípio de penetração); contrariamente a defesa tem de impedir esta progressão ofensiva (princípio de contenção). Estas ações desencadeiam outras, surgindo todo o dinamismo do jogo, por conseguinte, mais princípios específicos de ataque e defesa que se opõem como a cobertura ofensiva e a defensiva; a mobilidade (busca da desigualdade numérica), tendo por opositor o princípio defensivo do equilíbrio (igualdade numérica); a importante procura de criação de espaço para finalização defrontando-se com a concentração defensiva, que visa a diminuí-los.
Mas para que estas ações se realizem, temos a influência decisiva de alguns fatores. Esses fatores são, para os autores, as técnicas individuais, específicas e fundamentais de cada uma das ações ofensivas e defensivas, aliadas às movimentações coletivas, elementares (princípios específicos) e complexas (esquemas e sistemas táticos).
Compreendida a organização lógica do jogo de futebol (ou como eu proponho, seu padrão organizacional sistêmico), e os pressupostos metodológicos estruturais expostos, a atenção deve se volta para como ensinar ao aluno tudo isto, mas para tanto escreverei outra crônica pedagógica, a qual terá também por objetivo concluir a exposição das proposituras da teoria dos Jogos Desportivos Coletivos.
Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br