Desde a década de 1980 que uma epidemia de qualidade afetou o mundo das grandes corporações. As novas teorias administrativas apontavam mudanças paradigmáticas, as quais geraram significativas e profundas alterações.
Muitos estudiosos propagaram estas transformações em suas obras, como Alvin Toffler, com seu instigante livro "A terceira onda", Peter Drucker, com sua vasta obra, Peter Senge, com "A quinta disciplina", entre outros.
Todas estas modificações corporativas, não entrando no discurso ideológico capitalista, afetaram substancialmente a área de recursos humanos. Ou seja, o antigo departamento pessoal (DP), antes meramente um setor burocrático, se reformulou e passou a ser responsável, além da seleção, pela formação e atualização permanente dos colaboradores (antigos empregados).
Desse modo, a gestão de pessoas passou a ser a área mais importante de estudos aplicados nas ciências administrativas. O desafio que se avizinhava com a proximidade do século XXI seria de ordem humana.
Saber liderar, ou mesmo olhar para os colaboradores, e antes de exigir, oferecer condições de trabalho e levando-os todos a um crescimento pessoal, social e profissional, causou anunciação da morte do industrialismo tradicional para o nascimento de uma nova civilização: a civilização do conhecimento.
Nas palavras textuais de Alvin Toffler em A terceira Onda: "na Primeira Onda, ou sociedades agrárias, a principal forma de capital era a terra. Se eu cultivasse a minha terra, você não podia cultivar a sua plantação na mesma terra ao mesmo tempo. Era ou você ou eu, nunca ambos. O mesmo era - e ainda é - verdade para o capital nas economias industriais da Segunda Onda. Você e eu não podemos usar a mesma linha de montagem ao mesmo tempo. Tudo isso se inverte nas economias da Terceira Onda, nas quais o conhecimento é a principal forma de capital. Você e eu podemos usar o mesmo conhecimento ao mesmo tempo e, se o usarmos com criatividade, podemos até mesmo gerar mais conhecimento".
Peter Drucker, um dos mais conceituados autores no mundo dos negócios, disse em um de seus livros: "Cada vez mais o desempenho nessas novas indústrias baseadas no conhecimento passará a depender da direção da instituição de modo a atrair, manter e motivar os trabalhadores do conhecimento".
E corroborando com Drucker e Toffler, temos Peter Senge, que em seu clássico "A quinta disciplina: arte e prática da organização que aprende", diz que as disciplinas que compõem esta nova concepção de liderança e gerenciamento empresarial seriam: 1ª Domínio pessoal; 2ª Modelos mentais; 3ª Objetivo comum (visão compartilhada); 4ª Aprendizagem em grupo; 5ª Raciocínio sistêmico.
É interessante notar como tudo converge para um programa de desenvolvimento pessoal, social e profissional, enfatizando as necessidades de aprendizagem e construção de conhecimentos em toda a organização, desde os colaboradores à grande gerencia de forma interdisciplinar.
O desenvolvimento pessoal (individual), que interage com o social (coletivo) e que ao mesmo tempo interdepende do desenvolvimento profissional, gerando desse modo crescimento em todos os âmbitos e, concomitantemente, maiores rendimentos às corporações.
Contudo, mesmo o mundo corporativo querendo passear, envolver-se com o futebol, ainda não obteve êxito. O futebol é marcado por sua postura reacionário e todas as empresas ou mesmo instituições financeiras (como bancos, entre outras) não conseguiram administrar a modalidade como fazem com suas empresas.
O futebol tem suas peculiaridades, contudo o que Toffler, Drucker e Senge, apresentaram ao mundo corporativo (e este o abraçou), em nada difere dos conceitos pedagógicos propagados ao longo do século XX, pelos autores que defendem as novas concepções educacionais, como Jean Piaget, Lev Vigotski, Henry Wallon, Celestian Freinet, César Coll, Fernando Hernandez, Phillipe Perrenoud...
O professor João Paulo Medina em um de seus últimos textos publicados em seu blog, abordava exatamente esta mesma questão ao apresentar considerações sobre ações para o desenvolvimento sustentável no futebol.
Portanto, não é mais possível pensar a formação de jovens jogadores de futebol sem a criação de um programa que gerencie o crescimento pessoal, social e profissional de modo interdisciplinar. O pessoal, por exemplo, envolvem os estudos, tanto formais quanto os complementares (aulas de idiomas, etiquetas, comunicação...); o social diz respeito ao coletivo, ou seja, a necessidade de aprender a viver e interagir com o grupo e com a sociedade, pois jogadores de futebol não podem mais acreditar que vivem em um mundo fantástico (da fantasia), separado do mundo real - há compromissos sociais que precisam ser desenvolvidos, principalmente, por pessoas que podem, do dia para noite, tornar-se celebridades (influenciando novos jovens e crianças).
Já o profissional deve seguir aquilo que temos propagado e em muitas outras crônicas pedagógicas, em que as metodologias de treinamento devem enfatizar e estimular a adaptação e resolução de problemas por meio de jogo contextuais, possibilitando aos jogadores a construção de conhecimento para enfrentar, com sucesso e eficiência, as exigências reais do jogo de futebol.
Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br