Caros amigos da Universidade do Futebol,
Muitos não sabem, mas a Fifa não é o órgão máximo do futebol para decidir a respeito de mudanças nas chamadas "regras do jogo". Apesar de ser a instância máxima na organização do futebol a nível mundial, a Fifa não decide, sozinha, a respeito de mudanças nas leis do jogo (entenda-se por leis do jogo aquelas aplicáveis dentro das quatro linhas, tais como regra do impedimento, faltas, cartões, etc).
Na realidade, a entidade que determina as regras do jogo, propõe e aprova mudanças, é o Ifab (International Football Association Board). Esta entidade foi criada no final do século XIX e hoje é composta por representantes da Fifa e dos países britânicos Inglaterra, Irlanda do Norte, País de Gales e Escócia.
Interessante notar o histórico conservadorismo do Ifab com relação às diversas propostas de modificações das regras do jogo, principalmente no que se refere às propostas que visam introduzir inovações tecnológicas ao futebol.
Verdade seja dita, algumas alterações importantes foram introduzidas nas regras do futebol nas últimas décadas, tais como as alterações havidas na posição do goleiro (bolas atrasadas, forma de posse da bola pelo goleiro, etc), lei do impedimento, número e forma de substituição de jogadores, entre outras.
Mas quando a proposta refere-se a modernizações tecnológicas, tais como o tal olho de falcão na linha do gol (como temos recentemente no tênis), a reação é sempre negativa e conservadora.
Essa posição é explicada pela Fifa e justificada para que seja mantida a popularidade e o sucesso do futebol. Não pelo simples fato de permitir que erros humanos ocorram. Mas, principalmente, por entender que a beleza do futebol, e a grande explicação para a grande paixão que esse esporte desperta em comparação com todos os outros, é a sua simplicidade.
Para a Fifa (e, para o Ifab), a criação de regras de tornem o esporte complexo, com muitos recursos tecnológicos, afetaria a popularidade do esporte por tirar sua simplicidade.
Historicamente, essa explicação faz todo o sentido. Como sabemos, essa versão moderna do futebol surgiu na Inglaterra a partir de uma dissidência do rúgbi. Em finais do século XIX, ambos os esportes tinham o mesmo apelo entre os ingleses, eram como irmãos gêmeos. Porém, ao longo dos anos, o futebol tornou-se um fenômeno mundial, enquanto o rúgbi permaneceu como um esporte bem menos popular.
Talvez essa discrepância tenha ocorrido por conta da simplicidade do futebol, em oposição à aparente complexidade do rúgbi, já que neste último esporte, pela verdadeira confusão que se estabelece em campo, as regras parecem não ser tão simples e óbvias como as do futebol.
Mas essa é apenas uma suposição, ninguém pode afirmar categoricamente que a manutenção da simplicidade tenha sido o segredo do sucesso. Porém, como sempre vale o dito popular que diz "time que ganha não se mexe", acho que faz sentido apoiar a manutenção do futebol sem tecnologia.
Tanto por conta da justificativa dada pela Fifa e pelo Ifab, como por uma outra justificativa de minha convicção: mesmo com a introdução da tecnologia (que certamente não seria acessível ou viável para a grande maioria dos jogos), as polêmicas em torno dos lances controvertidos, e a discricionariedade do árbitro, não deixariam de existir.
Para interagir com o autor: megale@universidadedofutebol.com.br