"Os jogadores atuam no campo, eu fora dele". O discurso de José Mourinho na véspera do duelo desta terça-feira, que rendeu a classificação da Inter de Milão às quartas-de-final da Liga dos Campeões da Europa, reflete um pouco da personalidade do português. Muitas vezes egocêntrico e firme em suas opiniões, o treinador tem consciência de suas qualidades, do que quer em termos de carreira e até onde sua equipe pode chegar. O primeiro grande obstáculo foi superado.
Diante do Chelsea, em Stamford Bridge, os neroazzurri atuaram de maneira impecável: fortes defensivamente, com uma rápida transição ofensiva, ofereceram poucas oportunidades claras de gol aos anfitriões. E, em um contra-ataque puxado por Wesley Snijder, grande destaque do confronto, o camaronês Samuel Eto'o marcou o gol da vitória por 1 a 0 - 3 a 1 no placar agregado.
"Eles [jogadores] são muito mais importantes do que eu, porque os jogos são vencidos em campo, não no banco de suplentes. Vou estar concentrado na minha atual equipa. É isso que um profissional faz. Mas não escondo que o Chelsea representa uma parte muito importante da minha vida", comentou Mourinho, prevendo a emoção que passaria no estádio em que viveu grandes momentos.
Como técnico dos Blues, somou 66 jogos da Premier League em casa sem derrotas, faturando dois títulos consecutivos da competição. Também ganhou o "scudetto" no seu primeiro ano em Milão, na temporada passada.
Campeão europeu no comando do FC Porto, em 2004, Mourinho acredita que a Inter está agora em melhor posição para seguir em frente porque, "ano após ano, a tendência é melhorar".
"Se o trabalho do treinador é bom e o clube o apoia, como é este o caso, muda-se sempre para melhor. Contratamos alguns jogadores, o tipo de futebolistas que não tínhamos no ano passado - um médio tipicamente criativo, como o Wesley Snijder. E temos mais opções no ataque, com [Diego] Milito, [Samuel] Eto'o e [Goran] Pandev", elencou o técnico de 47 anos.
"Perdemos Zlatan Ibrahimovic, o que é uma pena, mas com estes três jogadores temos mais soluções. Além disso, o Lúcio também é um tipo de defesa central que não havia no plantel na temporada passada - alto e forte no jogo aéreo. Penso que estamos mais adaptados ao tipo de exigências do futebol moderno", completou.
Os "elogiados" de Mourinho, de fato, demonstraram eficácia. No duelo desta terça, todos os quatro compuseram o sistema ofensivo interista. Snijder deu passes precisos, Milito atuou como referência e Pandev ajudou bastante Zanetti pelo lado esquerdo. Já Eto'o apresentou a mesma performance decisiva dos tempos de Barcelona, e Lúcio freou as ações de Didier Drogba, principal atacante do Chelsea.
"Ele é produto da formação do Ajax e, normalmente, os jogadores do Ajax - com o tipo de treino que recebem desde tenra idade - são tecnicamente evoluídos", elogiou Mourinho, citando Sjneider.
"Jogam igualmente bem com o pé esquerdo e o direito e a forma como pensam e lêem o jogo é muito inteligente. É a consequência do trabalho nas categorias de base dessa bela cultura futebolística que é o Ajax. Aqui, na Inter, existe uma estrutura que pode fornecer ao Sneijder a liberdade que jogadores como ele precisam. Às vezes penso que ele é um atacante, porque tem muita liberdade para jogar. Aqui encontrou o ambiente ideal para expressar todo o seu potencial", completou.
Com a classificação garantida às quartas da Liga dos Campeões, a Inter volta sua atenção ao Campeonato Italiano. Agora, mantém vantagem de apenas um ponto em relação ao Milan. E há necessidade de apresentar a mesma mentalidade forte de rodadas passadas para voltar a ter uma folga na tabela, crê Mourinho, que cita o triunfo sobre o Siena, por 4 a 3, como um exemplo.
"O desafio com o Siena é um bom exemplo do que é esta equipe. Estávamos perdendo, e empatamos por 3 a 3 aos 91 minutos. Numa equipa normal, com jogadores e um treinador normais, teriam pensado: 'bem, chegamos ao empate, resgatamos um ponto e não perdemos'. Mas eu gritei aos jogadores: 'faltam três minutos, mais três minutos'. Podíamos ganhar ou perder. Ganhamos", rememorou o português.
"E o Samuel [Walter, zagueiro] perguntou-me: 'Recuo à defesa?', ao que eu respondi: 'Não, não recues. Fica lá na frente mais três minutos, para ver o que acontece'. Foi a minha decisão, mas um treinador só pode ser arrogante, só pode ter uma mentalidade ganhadora, se souber que a resposta dos seus jogadores é boa", acrescentou Morinho, reconhecendo que nem mesmo uma mentalidade vencedora garante o sucesso na Champions League.
"Basicamente, tudo se resume a detalhes: sorte ou não no sorteio, se a bola que bate no poste entra ou não, o jogador que é suspenso e não pode alinhar num jogo decisivo, o 'timing' das lesões, que podem privar uma equipe de dois ou três jogadores fundamentais, um erro de arbitragem a favor ou contra. Como é óbvio, apenas uma equipa muito boa pode conquistar a Champions League, mas posso enumerar sete, oito, nove equipas que podem fazer isso. É muito difícil prever o vencedor", finalizou.
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